Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

16º Domingo do Tempo Comum


16º Domingo do Tempo Comum

Neste 16º Domingo do Tempo Comum, continuamos a nossa caminhadaespiritual iluminados pelo capítulo 13 do Evangelho de São Mateus, o grandediscurso das parábolas. Se no domingo passado refletimos sobre o DivinoSemeador e os diferentes solos do nosso coração, neste domingo a Liturgia daPalavra nos convida a meditar sobre o mistério do mal no mundo, a paciênciamisericordiosa de Deus e a força silenciosa do Seu Reino. Em nossa Arquidiocesede São Sebastião do Rio de Janeiro, onde convivemos diariamente com realidadestão complexas, onde o bem e o mal parecem se cruzar em cada esquina, nas nossascomunidades, nos morros e no asfalto, a Palavra de Deus ressoa como um bálsamoque nos cura da pressa e nos ensina a agir com a mesma pedagogia do Pai.

O Evangelho (Mt 13,24-43) nos apresenta a Parábola do Joio e doTrigo. Jesus nos conta que o Reino dos Céus é como um homem que semeou boasemente em seu campo. Porém, enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo esemeou o joio no meio do trigo. O joio é uma planta que, enquanto estácrescendo, é quase idêntica ao trigo. A diferença só se torna clara no momentoem que as espigas começam a se formar; o trigo pesa e se curva, enquanto ojoio, vazio, permanece de pé. A reação imediata dos empregados, que representammuitas vezes a nossa própria atitude humana, é a da impaciência e do zeloamargo: "Senhor, queres que vamos arrancar o joio?". Mas aresposta do dono do campo é surpreendente e revela o coração de Deus: "Não!Pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. Deixaicrescer um e outro até a colheita".

Jesus nos ensina, de forma magistral, que o campo é o mundo. E, seformos honestos em nossa reflexão, o campo é também a Igreja e, maisprofundamente, o coração de cada um de nós. Nós vivemos em uma sociedademarcada pela cultura do cancelamento, das narrativas, da intolerância e dojulgamento apressado. Queremos ser os juízes da história, desejamos arrancar omal imediatamente, muitas vezes usando os mesmos métodos violentos do inimigo.No entanto, Deus nos pede paciência. Ele sabe que a fronteira entre o bem e omal não passa apenas entre as pessoas, mas atravessa o interior de cada coraçãohumano. Se Deus fosse arrancar todo o joio do mundo hoje, quem de nóspermaneceria de pé? A paciência de Deus não é omissão nem fraqueza; é, naverdade, o tempo da graça que Ele nos concede para a conversão. Santo Agostinhonos lembra, com grande sabedoria, que na lavoura de Deus, aquilo que hoje éjoio tem a oportunidade de, pela força da graça, transformar-se em trigoamanhã.

Essa mesma pedagogia divina nos é atestada de forma belíssima naprimeira leitura, retirada do Livro da Sabedoria (Sb 12,13.16-19). O autorsagrado louva a Deus porque o Seu poder é o princípio da Sua justiça. Para nós,humanos, o poder muitas vezes é sinônimo de opressão e vingança. Mas, paraDeus, o poder absoluto manifesta-se na suprema clemência. O texto sagrado nosdiz: "Julgas comclemência e nos governas com grande indulgência". Deus não age peloimpulso da ira, mas pela majestade da misericórdia. O Senhor nos ensina que averdadeira justiça jamais exclui a esperança e que, mesmo castigando o pecado,Ele abre sempre um caminho para o arrependimento. Sejamos nós também promotoresdessa indulgência em nossas famílias, em nossos ambientes de trabalho e nasrelações pastorais. Aquele que julga o irmão com dureza implacável ainda nãocompreendeu o Evangelho da salvação.

Reconhecemos que viver esta paciência e suportar as tribulações eas fragilidades — as nossas e as dos outros — não é uma tarefa fácil.Experimentamos a nossa limitação e, por vezes, não sabemos sequer como pedir aDeus o que nos convém. É neste contexto de fragilidade que a segunda leitura,da Carta de São Paulo aos Romanos (Rm 8,26-27), vem em nosso auxílio. OApóstolo nos garante: "OEspírito vem em auxílio da nossa fraqueza; porque não sabemos o que devemospedir, nem orar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com gemidosinefáveis". Que imenso consolo! Nas horas de angústia em nossametrópole carioca, quando o sofrimento bate à porta e as palavras nos faltam,não estamos sozinhos. O Espírito Santo, que habita em nós desde o dia do nossoBatismo, ora em nós e por nós. Ele é quem traduz os gemidos do nosso coração ealinha a nossa vontade à vontade amorosa do Pai. “E quando nos faltarem aspalavras...confia no Senhor...”

Para consolidar esta mensagem de esperança, o Evangelho nosoferece ainda duas breves e profundas comparações: a semente de mostarda e ofermento na massa. O Reino de Deus não se impõe pelo espetáculo, pelo poderpolítico ou pelo barulho estrondoso. Ele começa pequeno, quase invisível. Asemente de mostarda, a menor de todas as sementes, transforma-se em um grandearbusto que acolhe os pássaros do céu. O punhado de fermento, escondido em trêsporções de farinha, leveda toda a massa. Estas imagens são um chamado àconfiança pastoral para todos os nossos sacerdotes, diáconos, religiosos,catequistas e leigos engajados. Muitas vezes, o nosso trabalho em uma pequenacapela de periferia, a visita a um enfermo, a catequese de uma criança ou oprato de comida oferecido ao irmão em situação de rua, pode parecerinsignificante diante do oceano de problemas do Rio de Janeiro. No entanto, éexatamente essa "insignificância" que possui a força do fermentodivino, capaz de transformar as estruturas da nossa sociedade a partir dedentro.

Que o 16º Domingo do Tempo Comum renove em nós a confiança na açãomisteriosa e eficaz de Deus. Não nos deixemos paralisar pelo pessimismo nempela tentação de criar comunidades formadas apenas por "puros", ondenão há espaço para a misericórdia. Sejamos o trigo bom que, mesmo crescendo aolado do joio, não perde a sua essência, mas se fortalece e aponta para o céu.Sejamos o fermento de Cristo, levedando com amor as realidades temporais, apolítica, a economia, as artes e a vida familiar.

Confiemos esta nossa caminhada arquidiocesana à intercessãomaterna da Santíssima Virgem Maria. Ela, que soube guardar todas as coisas emseu coração e esperar o tempo de Deus, nos ensine a ser pacientes emisericordiosos. Que Nossa Senhora da Penha e nosso glorioso padroeiro, SãoSebastião, roguem por nós, para que, no dia da grande colheita, possamos serrecolhidos no celeiro do Pai, resplandecendo como o sol no Reino dos Céus.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastiãodo Rio de Janeiro, RJ



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