Paula Winitski
O Segredo que Deus Esconde...
Jornal Democrata, edição 1935 de 15 de agosto de 2026 Você já sentiu uma compaixão tão profunda que doeu no corpo?
Aquela dor que não vem da cabeça, mas de um lugar mais fundo, quase visceral?
Os antigos hebreus tinham uma palavra exata para isso: rachamim.
E aqui começa o segredo — porque rachamim nasce de rechem, que significa útero. Sim, a misericórdia de Deus, na Bíblia, não é um conceito abstrato, uma virtude teológica ou um sentimento educado. É amor de mãe. É o amor que brota das entranhas, que conhece o outro por dentro, que carregou a vida no ventre e não suporta vê-la despedaçada.
Talvez você imagine Deus como um juiz frio, sentado num trono distante, contabilizando erros.
Mas, quando Ele decide revelar o próprio nome a Moisés, a primeira coisa que declara é: “YHWH, YHWH, Deus compassivo (rachum) e gracioso, lento para a ira e abundante em misericórdia leal (chesed)” (Êxodo 34:6).
Note a ordem: antes de falar de justiça, de santidade ou de poder, Deus fala de compaixão.
E chesed é uma palavra ainda mais rara — um amor de aliança que não desiste, mesmo quando o outro falha. É a fidelidade de quem ama apesar de tudo.
Davi, depois de adultério e assassinato, não apela à própria justiça, não oferece desculpas, não tenta barganhar. Ele simplesmente clama: “Tem misericórdia de mim, ó Deus, segundo a multidão das tuas compaixões” (Salmo 51:1). Ele sabia o segredo: a misericórdia de Deus é maior do que a nossa culpa.
Os profetas também beberam dessa fonte.
Miqueias resume a vida inteira em três atos: “praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com o teu Deus” (Miqueias 6:8). Não é um ritual, é um caminho.
E Jeremias, em meio às ruínas fumegantes de Jerusalém, com o coração partido, sussurra uma das frases mais belas de toda a Escritura: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos… novas são a cada manhã” (Lamentações 3:22-23). Perceba a força dessa imagem: a misericórdia não é um estoque limitado, mas uma nascente que se renova ao amanhecer. Cada dia é um presente das entranhas de Deus.
Mas foi em Jesus que esse segredo ganhou rosto, mãos e lágrimas.
O grego do Novo Testamento usa um verbo impressionante: splagchnizomai. Ele também vem das vísceras, das entranhas. Não é “sentir pena” de longe; é ser movido por dentro, ser tomado por uma compaixão que obriga o corpo a agir.
Jesus via as multidões cansadas, exploradas, abandonadas, e “compadecia-se nas entranhas” (Mateus 9:36).
Ele não apenas notava a dor — ele a sentia no próprio ventre.
Por isso tocou o leproso que todos evitavam (Marcos 1:41).
Por isso parou diante do cortejo fúnebre da viúva de Naim e devolveu o filho vivo à mãe (Lucas 7:13-15).
Por isso olhou para a mulher adúltera, encurralada por acusadores, e disse: “Nem eu te condeno; vai e não peques mais” (João 8:11).
A misericórdia de Jesus não é conivência com o erro — é recusa em esmagar quem já está caído.
A parábola do filho pródigo talvez seja o retrato mais íntimo desse segredo.
O pai vê o filho voltando de longe, ainda sujo, ainda arruinado, e “compadeceu-se nas entranhas; e, correndo, lançou-se ao seu pescoço e o beijou repetidamente” (Lucas 15:20).
Repare: o pai corre. No Oriente antigo, um homem respeitável não corria. Correr era vergonha. Mas a misericórdia não se importa com a própria honra.
Ela sai correndo. Ela abraça antes de ouvir explicações. Ela beija antes de cobrar arrependimento.
E, na cruz, o auge de tudo, Jesus não amaldiçoa os que o matam; ele intercede: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lucas 23:34).
A misericórdia não fugiu da dor; ela entrou na dor mais profunda para transformá-la em perdão.
Paulo escreve para nós: “Deus, sendo rico em misericórdia, nos vivificou juntamente com Cristo” (Efésios 2:4-5).
Não é uma misericórdia escassa, dada com conta-gotas. É riqueza. É transbordamento. E ela não termina em você.
Jesus disse: “Bem-aventurados os misericordiosos, pois alcançarão misericórdia” (Mateus 5:7). Tiago completa: “A misericórdia triunfa sobre o juízo” (Tiago 2:13).
O segredo, então, é esse: fomos gerados no útero da compaixão divina para renascer como canais dessa mesma compaixão no mundo.
Termino onde comecei: nas entranhas do ventre de Deus Pai.
Que a misericórdia que nasceu no coração de Deus, que se fez carne em Jesus e que renovou a manhã de Jeremias, renasça hoje em você.
Que ela doa no seu corpo, incomode suas mãos, abra seus braços e flua...
Porque o mundo, cansado e ferido, ainda espera por alguém que olhe, com o amor das entranhas de mãe, nosso Deus Pai. E esse alguém pode ser você.
Tenha a certeza desse Amor, complete-se com Ele, identifique-se nessa realidade e tenha essa mentalidade...
E então flua... Com todo o seu ser, a realidade do céu na terra, somos nós vivificados em Amor e Misericórdias...
Beijinhos...
Paula Winitski



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