Paula Winitski
A acusação...
Jornal Democrata, edição 1929 de 28 de junho de 2028 Oi, meu amor…
No princípio, antes do primeiro pecado visível, houve o primeiro pensamento de suspeita.
Antes da mão de Eva tocar o fruto, a mente dela já tocava numa terrível possibilidade: “E se Deus não for bom?”
Um jardim, dois corações nus e livres. Amados.
Um único pedido entre eles e a morte.
E uma voz sibilou a pergunta que jamais deixou de ocupar e ecoar na alma humana: “Foi assim que Deus disse?” (Gn 3:1)
A serpente não começou negando a Deus. Começou, sutilmente, deixando uma suspeita no ar e questionando o caráter de Deus. Ela disse: “Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, conhecendo o bem e o mal.” (Gn 3:5)
A suspeita foi colocada na mente de Eva.
Uma suspeita que virou uma acusação velada, mas precisa: Deus está escondendo algo de você. Deus não quer o melhor para vocês. Deus é um tirano que teme ter rivais. A verdadeira liberdade está em romper a confiança e ser como Ele.
Adão e Eva tinham uma escolha. E a escolha não era apenas sobre obediência. Era um veredito.
Ao comer o fruto, eles votaram. Declararam que Deus não era digno de confiança.
A queda não foi uma simples transgressão; foi um julgamento silencioso no tribunal do coração. A primeira difamação da história.
Milênios depois, Moisés subiu ao monte e desceu com duas tábuas de pedra. E entre elas, dois mandamentos que expõem toda a raiz dos outros: “Não cobiçarás” e a exigência de amar a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. (Êx 20:17 e Dt 6:5)
A cobiça é um pecado sem ato externo. Ninguém vê. Não deixa evidência. Só Deus e a alma do cobiçoso sabem. É o desejo que brota no escuro, a inveja que se enrola no coração como serpente.
A cobiça é o voto interior que declara: Deus não é bom. Não me dá o que eu mereço. Por isso, preciso tomar para mim.
O apóstolo Paulo, séculos depois, confessou sua própria guerra com esse mandamento: “Eu não teria conhecido a cobiça se a Lei não dissesse: ‘Não cobiçarás’. Mas o pecado, aproveitando a ocasião pelo mandamento, produziu em mim toda sorte de cobiça.” (Rm 7:7-8)
A Lei mostrou que a obediência externa pode esconder uma rebelião interna.
A Lei mostrou o diagnóstico, mas não pode curar o pecador.
O diagnóstico diz:
Cada vez que desejamos o que Deus não nos deu, estamos repetindo o voto do Éden.
Cada vez que nos agarramos ao controle de tudo, estamos declarando que Deus não é provedor.
Cada vez que abrigamos rancor de alguém, estamos votando que Deus não fará justiça por nós.
Nossos pecados visíveis são apenas a ponta do iceberg. A massa submersa é enorme e representa um veredito contínuo contra o caráter de Deus.
Mas o plano divino nunca foi apenas o diagnóstico. Ele quer curar! E a cura veio com o segundo Adão.
Lucas 4:1-13 nos mostra um cenário oposto ao do Éden. Não um jardim exuberante, cheio da presença de Deus, mas um deserto cheio de pedras e fome.
O mesmo acusador se aproxima. A tática é a mesma: buscar a vulnerabilidade — fome, sede, fraqueza após quarenta dias no deserto...
As três tentações são variações do mesmo tema do Éden.
A primeira tentação — transformar pedras em pães — não era sobre fome; era sobre confiança.
Deixando a suspeita sutil: Deus o deixou passar fome. Ele não é um bom provedor. Tome o controle e mate a fome!
A segunda tentação — lançar-se do pináculo — era: force Deus a provar a Sua fidelidade! Exija um milagre como evidência. Coloque Deus no banco dos réus!
A terceira tentação — os reinos em troca de adoração — era sobre o caminho. A suspeita sutil era: Deus lhe oferece sofrimento e cruz; eu lhe ofereço poder agora. Quem realmente é generoso?
Todas as tentações conduziam, sutilmente, à mesma acusação: Deus não é bom!
Mas Jesus, o segundo Adão, com fome, com sede e com a fragilidade de quem é carne, usou Sua liberdade para absolver o Pai.
Cada “está escrito” foi um voto de confiança. Cada “não” foi um ato de amor ao Pai.
Onde Adão votou contra Deus, Jesus restaurou o caráter do Pai.
No deserto, a liberdade revelou o caráter perfeito de Jesus e, ao revelá-lo, restaurou a honra do Pai difamado no Éden.
O deserto foi o ensaio. A cruz foi a estreia definitiva.
No Calvário, a liberdade humana atingiu seu grau máximo: Jesus, esvaziado e pendurado, tornou-Se vulnerável ao veredito que cada coração Lhe daria.
Dois ladrões, uma cruz, a mesma liberdade. Um a usou para zombar; o outro, para se entregar ao Rei dos reis.
O ladrão que confiou fez o que Adão não fez: confiou. E, ao confiar, declarou que Deus é bom, mesmo que a evidência visível fosse um homem sangrando numa cruz. Essa é a essência da fé: não é ver para crer; é crer apesar do que se vê.
Durante toda a nossa vida, fomos testemunhas no tribunal silencioso da alma. Nossas escolhas, nossos desejos, nossos medos, nossas cobiças... todos são votos!
A pergunta nunca foi: “O que estou fazendo?”, mas: “O que estou declarando sobre Deus com isso?”
Mas o Hessed — o amor leal de Deus — entrou nesse tribunal e o transformou em jardim. O Juiz Se fez Réu. O Réu Se fez Salvador. E agora, a mesma liberdade que antes votava contra Deus pode votar a favor.
Cada vez que você confia, é um voto.
Cada vez que você descansa em meio à incerteza, é uma absolvição.
Cada vez que você perdoa quem não merece, está declarando que Deus é o justo Juiz e que você não precisa ocupar o trono dEle.
Não estamos mais no Éden, repetindo o voto de Adão. Estamos no jardim da Ressurreição, onde Jesus já venceu!
O veredito que pesava sobre nós e sobre o caráter de Deus foi substituído por uma palavra: Hessed.
Hessed é o amor que não depende do seu voto para existir. Ele já existia muito antes de você e de mim nascermos. Ele está aqui, sussurrando: “Hoje estou com você!”
A pergunta que a serpente fez no Éden ainda ecoa, mas agora temos a resposta. Não uma resposta intelectual. Uma resposta viva!
Um voto: o voto de uma alma redimida, encontrada pelo Hessed, que parou de fugir e se deixou encontrar para fluir...
Deus é bom. Eu confio!
E o Hessed não responde apenas nas palavras da Bíblia. Ele responde envolvendo você, fortalecendo você, guiando você no silêncio, na contemplação da esperança e na certeza de que tudo coopera para o nosso bem, pois Jesus está conosco hoje e agora.
Vote de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todo o seu entendimento, de forma espiritual e prática!
Viva fluindo na Graça, no Hessed, na realidade do céu na terra!
Que a graça de Jesus, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito habitem em nós!
Beijinhos...
Paula Winitski



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