Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
18º Domingo do Tempo Comum
Jesus nos sacia da fome do pão cotidiano e nos dá a Palavra de salvação!
Estamos celebrando o décimo oitavo Domingo do Tempo Comum. Domingo este que também celebramos o dia do padre. Na liturgia deste domingo, a questão do Reino permanece, mas agora em gestos e imagens que revelam o Reinado de Deus. Uma das imagens mais fortes da realidade do Reino é a abundância de alimentos, por isso o Evangelho e a primeira leitura trazem a imagem de um “banquete”, e a segunda leitura assegura a união amorosa de Deus, por meio de Jesus Cristo, com aqueles a quem chamou para fazerem parte de seu Reino. Por isso tudo, o salmista pode cantar: “Vós abris a vossa mão e saciais os vossos filhos” (Sl 144).
Na primeira leitura – Is 55,1-3 – o profeta Isaías não pensa apenas no aspecto material da promessa, mas imagina o Reino de Deus onde a ambição e a insaciável fome de bens materiais serão excluídas do imaginário dos discípulos de Jesus! O profeta Isaías anuncia um mundo novo, onde a ambição e a fome insaciável de bens perecíveis serão excluídas e não mais atormentarão a vida humana. É a chegada do Reino de Deus. É preciso sonhar com Deus esperando o mundo novo! A primeira leitura está intimamente conectada com o Evangelho. As multidões devem estar atentas ao convite divino expresso pelo profeta Isaías: “Inclinai vosso ouvido e vinde a mim” (v. 3). O Senhor, no texto de Isaías, convida a vir e a ouvir. O chamado está marcado em “vinde às águas”, “vinde e comei”, “vinde comprar” e, no final, “vinde a mim”. Em seguida, vem o convite a ouvir: “ouvi-me com atenção” e “inclinai vosso ouvido”.
Na segunda leitura – Rm 8,35-39 – o Apóstolo Paulo já entrou na posse do mundo novo – mundo de Jesus – e nada poderá afastá-lo desta promessa, melhor, da certeza do mundo melhor com Jesus Cristo! E Jesus tem o poder para transformar o sonho de Paulo em realidade e, por que não, o mundo que esperamos de Jesus e com Jesus! O autor da carta expõe os aspectos terrenos e transcendentes de modo diferente. As questões pertencentes ao âmbito do terreno são expostas por meio de perguntas, sendo a primeira a orientadora de todas as outras: quem nos separará do amor de Cristo? Todas as outras são desdobramentos desta: tribulação, angústia, perseguição, fome, nudez, perigo, espada? Ao final, o autor mesmo responde que, graças àquele que nos amou, já somos vencedores sobre todas as dificuldades que possam se levantar contra nós.
No Evangelho – Mt 14,13-21 – Jesus não recusou sua palavra a ninguém, mas preferiu falar aos pobres e doentes de seu tempo! A quem se dirige a pregação da Igreja nos dias atuais? Melhor, a quem se dirige a nossa pregação de sacerdotes e cristãos na Igreja de Jesus em nossos dias? Mais ainda, Jesus não se limitou à pregação; preocupou-se com a fome de seus ouvintes; estes precisavam da Palavra e do Pão!
Para Mateus, o afastamento de Jesus para um lugar deserto é motivado pelo conhecimento da morte de João Batista. Ao tomar conhecimento da triste notícia, Jesus se afasta para um lugar deserto de barco. Quem vai para um deserto de barco? A referência ao barco indica que o deserto aqui não significa o deserto físico, mas a condição de pouco movimento ou habitação. Chegando ao local, Jesus é recebido pelas multidões, que foram a pé. O aparente desejo de Jesus de estar sozinho malogra. Diante de uma multidão que o procura, todo seu ser se move: “Encheu-se de compaixão e curou os que estavam doentes” (v. 14).
Jesus envie aquelas pessoas para que possam ir em busca de alimento. Jesus, no entanto, passa aos discípulos a responsabilidade de alimentar aquele povo. Tudo o que eles têm são cinco pães e dois peixes, a comida habitual do povo daquela região. Jesus pede que levem a ele o que têm e, após pronunciar a bênção sobre os alimentos, entrega-os aos discípulos para que distribuam. O resultado dessa partilha generosa é uma sobra impressionante: 12 cestos cheios. Alimentar 5 mil homens, sem contar mulheres e crianças, indica que, na verdade, se alimentou muito mais do que é possível calcular.
A verdadeira Boa-Nova para o mundo atual é esta: o amor terno e próximo de Deus, manifestado em Jesus Cristo! Mas, atenção: somente poderemos ser testemunhas de tal amor se nós mesmos nos deixarmos tocar e envolver pela ternura do Cristo! Atendamos, portanto, ao seu convite de ir gratuitamente a ele, apesar de nossas pobrezas! Deixemos que ele nos alimenta e sacie de vida e de paz!
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



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