Paula Winitski

A saudade que vem do céu


A saudade que vem do céu Jornal Democrata, edição 1926 de 7 de junho de 2026

Oi, meu amor…

A saudade é talvez a mais humana das experiências, é uma lembrança revestida de dor suave, de afeto, da consciência de que algo ou alguém precioso agora habita apenas no território inatingível do passado ou no castelo da memória.

É a nostalgia de um tempo que não volta, de um abraço que não se repete, de uma conversa que ecoa apenas na mente. Mas através da fé cristã, esse sentimento profundo ganha contornos de esperança e significado eterno, pois somos filhos do Deus Pai, Criador, Mantenedor e Restaurador…

Fomos criados à Sua imagem e semelhança e por isso nossa memória guarda não apenas sons e imagens, mas também emoções e a própria noção de Deus. A saudade, nesse sentido, é um movimento da alma que, ao buscar no passado aquilo que amam, na verdade está buscando uma felicidade permanente que só pode ser saciada no nosso Deus.

Santo Agostinho disse: “Criaste-nos para Ti, é o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti”.

Em Eclesiastes 3:11 nos diz que Deus colocou a eternidade no coração do homem. E essa é a chave para entender nossa nostalgia. A saudade não é apenas por um passado idealizado, mas por um futuro prometido, por um estado de plenitude que ainda não experimentamos completamente, pois foi plantada em nosso coração.

Eu nunca havia pensado na memória, na lembrança e na saudade separadamente, mas um dia ao ler uma poesia, parei para refletir, pois a poesia é uma arte de nos levar além da realidade simples da mente, a poesia nos faz ir à profundeza do nosso ser…

Santo Agostinho, se aprofundou muito sobre isso… E vou usar sua sabedoria que provavelmente veio de Deus Pai, para viajarmos na nossa mente.

Para Santo Agostinho, nossa memória é como um palácio, enorme que tem tudo que vivemos até hoje, há as memórias conscientes e também as inconscientes, ou seja, nós captamos tudo, tanto intencionalmente como quando estamos estudando, como sem intenção, como quando sentimos impressões e a visão periférica que a mente capta, mas não percebemos… E já pensou que quando esquecemos algo e depois lembramos que esquecemos? É surreal, pois se esquecemos deveria ser perdido, certo? Mas nossa memória consegue trazer à tona e conseguimos lembrar o que esquecemos…

Agora, estamos dentro do palácio e podemos buscar lembrar coisas que queremos, ou trazer à lembrança o passado por causa dos “vestígios” das coisas vividas… E é surpreendente analisar que podemos ver pela lembrança pessoas, fatos com pessoas, cheiros que permeavam, os sentimentos maus ou até o aconchego, carinho, amor… E às vezes, nunca paramos para analisar a complexidade disso, pois isso esteve conosco sempre.

A saudade é a experiência crucial, pois nos deixa inquietos para completar um incompleto no nosso ser.

Jordan Peterson nos diz que precisamos analisar a saudade, pois ela pode te paralisar e te deixar vivendo no ontem, pois o hoje não está te satisfazendo. Então a saudade pode ser boa ou paralisante, depende como a usamos. É como se nós entrássemos num quarto do palácio e não queremos sair dele, pois lá é confortável e seguro, ou seja, uma zona de conforto. Mas há tanto a ser vivido, há tanto a ser aprendido… precisamos ter cuidado…

Quando estamos com saudade é porque algo está nos cutucando para buscarmos além… Toda a saudade, segundo Santo Agostinho, tem um fundo: é a prova de que o que realmente estamos buscando é Deus.

A memória é o terreno onde se disputa a nossa percepção da realidade, pois podemos nos fixar em uma lembrança para construir uma identidade de vítima ou de fé. Podemos nos perder na nostalgia de um passado idealizado ou podemos através de uma memória acessar graças e bençãos passadas para santificar o nosso presente.

A conclusão da memória não é se lembramos, mas como e para quê lembramos.

Toda saudade é, em essência, esperança. Esse “beijo doce” da saudade, com seus cheiros e toda a sua essência, não é um fim. É um começo, é um convite mais profundo do que a consciência humana pode receber. Ele nos sussurra que o amor que sentimos por uma pessoa, a paz que tivemos em um lugar, ou a alegria de um momento não foram ilusões, mas foram amostras grátis da eternidade. Foram vislumbres de um estado de ser para o qual fomos criados.

Deus nos deu a capacidade de “ver” o passado, analisar o presente e “vislumbrar” o futuro. Sem Deus enraizado em nossas crenças, essa capacidade pode virar ansiedade e depressão, ou ser pela fé, um motor de arranque em busca da esperança que alcançaremos.

Deus é memória pura, não um arquivo, mas um ato contínuo, sempre em movimento, de reconhecimento amoroso e fiel.

Isaías 49:15-16 nos diz: “Acaso, pode uma mulher esquecer-se de seu filho que mama?… Embora, ela se esqueça, eu não te esquecerei. Eis que nas palmas das minhas mãos te gravei”.

A memória de Deus é ativa e intencional, Ele nos gravou em Suas mãos para nos lembrar da Cruz. O Pai não se lembra de nós, Ele nos porta em si mesmo, continuamente, como o cavalo-marinho e seus filhotes.

Praticar a lembrança das coisas que Ele nos fez, não é para Ele e sim para nós, pois assim nos alinhamos em Seu amor… É sintonizar nossa memória finita com Sua memória infinita é fiel, fortalecendo nossa fé – visão do invisível e na certeza que gera esperança. A esperança é um antídoto da ansiedade. Confiar em nosso Pai que é amor é fiel faz toda a diferença, pois reconhecemos que o Pai quer todos os Seus filhos com Ele, hoje e para sempre.

Use sua mente com esperança do encontro com o Pai, delicie-se nas lembranças das bençãos recebidas e tenha saudades para te impulsionar sempre para os Seus braços e Suas promessas.

Beijinhos

Paula Winitski



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