Fabrício Menardi
China e Rússia: a dupla estratégica persiste mas seus limites são claros
A cúpula desta semana mostra que a relação é resiliente, baseada em interesses compartilhados. Mas a China continua cautelosa quanto a compromissos em várias frentes.
Nos últimos seis meses, Pequim emergiu como um ponto de encontro diplomático para todos os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. O mais recente visitante foi uma figura familiar para seu anfitrião chinês: o presidente russo Vladimir Putin, que o presidente Xi Jinping encontrou mais de 40 vezes desde 2012.
Assim como ocorreu na cúpula Xi–Trump da semana passada, a mídia internacional concentrou-se na aparente química pessoal entre os líderes, analisando cada detalhe do teatro diplomático em torno das reuniões.
Na realidade, porém, a geopolítica raramente é movida por simpatia pessoal ou “amizades políticas”. Ela é moldada por interesses estratégicos, cálculos de poder e prioridades nacionais.
Este último encontro entre Xi e Putin foi concebido para enviar uma mensagem ao mundo: Pequim e Moscou continuam estrategicamente alinhadas em seu esforço para remodelar a ordem internacional. Uma declaração conjunta da cúpula, defendendo um “mundo multipolar” e um “novo tipo de relações internacionais”, ressaltou a durabilidade da parceria China–Rússia em um momento de crescente fragmentação global.
No entanto, por trás da aparência de unidade existe uma realidade mais complexa. China e Rússia permanecem unidas pela geografia, pela oposição compartilhada ao domínio ocidental e por uma agenda estratégica parcialmente convergente. Mas a parceria não é ilimitada. Pequim se preocupa com uma dependência excessiva da energia russa. E suas ambições globais mais amplas continuam impondo limites sobre até onde essa relação pode evoluir.
A cúpula Xi–Putin revelou, portanto, duas verdades simultaneamente: China e Rússia continuam atuando como uma dupla estratégica consistente no cenário mundial. Mas sua parceria permanece baseada em alinhamento pragmático, e não em uma aliança plena.
Laços que unem
A geografia é o primeiro e mais duradouro fator que une China e Rússia. Os dois países compartilham uma das maiores fronteiras terrestres do mundo (com 4.300 km, aproximadamente a largura do continente europeu) e ocupam o mesmo espaço estratégico eurasiático. Nenhum dos dois pode se permitir uma hostilidade prolongada com o outro.
Para Pequim, relações estáveis com Moscou garantem sua fronteira norte e reduzem o risco de cerco por potências hostis vindas do sul. De fato, parte do propósito da visita de Putin nesta semana é comemorar o 25º aniversário do “Tratado de Boa Vizinhança e Cooperação Amigável”, firmado por Putin e pelo antecessor de Xi, o presidente Jiang Zemin.
Para a Rússia, a parceria com a China oferece resiliência econômica e relevância geopolítica em um momento em que as relações de Moscou com o Ocidente permanecem profundamente abaladas.
Essa lógica geográfica tornou-se ainda mais relevante à medida que o sistema internacional se torna mais polarizado. Pequim e Moscou enxergam valor em coordenar ações contra aquilo que descrevem como “hegemonia” e unilateralismo ocidentais. O novo comunicado sobre multipolaridade reflete essa visão compartilhada. A linguagem de uma ordem internacional “mais justa e equitativa” não é apenas retórica; ela reflete um esforço antigo de chineses e russos para enfraquecer a predominância das instituições lideradas pelos EUA e criar mais espaço para centros alternativos de poder.
Essa multipolaridade serve a propósitos diferentes, mas complementares. A Rússia a vê como um caminho para sair do isolamento e como reconhecimento de que continua sendo uma grande potência, apesar das sanções ocidentais e da pressão diplomática. A China vê a multipolaridade como uma transição para um mundo menos centrado na primazia estratégica americana e mais receptivo à crescente influência econômica e política de Pequim.
Essa convergência produziu uma parceria estratégica duradoura. A China forneceu à Rússia importantes linhas de sobrevivência econômica desde o início da guerra na Ucrânia. Expandiu o comércio bilateral, aumentou as compras de petróleo e gás russos e manteve intercâmbios tecnológicos e industriais — prejudicando, no processo, suas relações com a Europa.
A Rússia, por sua vez, ofereceu à China suprimentos energéticos com desconto, cooperação militar e apoio diplomático em questões que vão de Taiwan às críticas às intenções da OTAN na Ásia.
Alinhamento, não confiança
Mas o alinhamento estratégico não elimina assimetrias ou desconfianças. E não substituirá a busca central de Pequim por autossuficiência econômica.
Pequim continua hesitante em aprofundar sua dependência energética da Rússia. Embora a cooperação energética permaneça um pilar das relações bilaterais, a China evitou se colocar em uma posição na qual os suprimentos russos se tornem indispensáveis.
Isso explica por que projetos discutidos há muito tempo, como o gasoduto Power of Siberia 2, continuam avançando lentamente apesar dos repetidos apoios retóricos. Para Moscou, o projeto é economicamente urgente: a redução das importações europeias de energia russa transformou a China no mais importante cliente energético de longo prazo em potencial do Kremlin.
Mas Pequim conduziu as negociações com cautela, aproveitando a posição enfraquecida da Rússia para exigir preços e condições de fornecimento favoráveis. Essa hesitação é estratégica, e não apenas comercial. Pequim entende que depender excessivamente de um único fornecedor cria vulnerabilidades.
A relação é resiliente porque é pragmática, transacional e baseada em interesses compartilhados — e não em obrigações de tratados ou profunda confiança mútua.
Os formuladores de políticas chineses passaram anos diversificando fontes de energia no Oriente Médio, Ásia Central, África e mercados globais de GNL justamente para evitar dependência geopolítica. Tornar-se excessivamente ligada à energia russa reduziria a flexibilidade da China e exporia Pequim a riscos estratégicos desnecessários.
Além disso, a China não compartilha todas as prioridades geopolíticas da Rússia. Embora ambos se oponham ao domínio americano, Pequim permanece muito mais integrada à economia global do que Moscou e tem muito mais a perder com uma instabilidade prolongada. A China busca influência sistêmica por meio de interdependência controlada com parceiros comerciais e rivais; a Rússia frequentemente busca influência por meio da desestabilização de pontos críticos globais.
Essa distinção é importante. Pequim apoia Moscou politicamente até certo ponto, mas também tem sido cuidadosa para não abraçar totalmente o confronto russo com o Ocidente. Os líderes chineses continuam preservando laços econômicos com a Europa. Mantiveram acesso aos mercados globais. E evitaram provocar sanções secundárias severas o suficiente para comprometer o já enfraquecido crescimento doméstico da China.
A mais recente cúpula Xi–Putin, portanto, mostrou uma relação definida menos pela ideologia e mais por utilidade estratégica calibrada. Ambos os lados se beneficiam ao aparentar unidade. A Rússia ganha a imagem de possuir um parceiro poderoso, apesar dos esforços ocidentais de isolamento. A China mantém um contrapeso geopolítico confiável aos EUA e um parceiro importante na promoção de visões alternativas de governança global.



COMENTÁRIOS