Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
O Itinerário da Salvação: Da Dispersão em Babel à Água Viva do Espírito
Jornal Democrata, edição 1924 de 22 de maio de 2026 A Vigília de Pentecostes propõe à Igreja um exercício de escuta estruturada. A liturgia apresenta um percurso histórico e teológico que documenta a evolução da promessa de Deus. As leituras opcionais desta noite formulam um diagnóstico da condição humana sem a graça e revelam o projeto divino de restauração por meio do Espírito Santo. A compreensão deste processo é vital para a ação pastoral. O cristão deve analisar estes textos bíblicos para compreender o seu papel objetivo na sociedade atual.
O itinerário inicia-se com a leitura do livro do Gênesis (Gn 11,1-9), que narra a construção da torre de Babel. O texto descreve um projeto focado na uniformidade e na hegemonia política. Os homens decidem edificar uma cidade e uma torre para não se dispersarem, buscando afirmação através do próprio esforço. A intervenção de Deus, que confunde a linguagem, serve como análise sociológica da autossuficiência. Quando a civilização tenta construir a sua unidade baseada na prepotência e na exclusão do divino, o resultado prático é a fragmentação. Babel representa as estruturas de poder que, ao ignorarem a ordem moral de Deus, geram incomunicabilidade e divisão social.
A liturgia avança para a Segunda Leitura, no livro do Êxodo (Ex 19,3-8a.16-20b). Após libertar o povo, Deus propõe uma aliança no monte Sinai. O objetivo é formar “um reino de sacerdotes e uma nação santa”. A análise desta passagem mostra a necessidade da Lei para organizar a vida em comunidade. Ela demanda a obediência civil e o temor a Deus, estabelecendo os fundamentos iniciais da justiça. No entanto, o texto também evidencia um limite. O povo responde que fará tudo o que o Senhor disse, mas a história revelará a incapacidade coletiva de cumprir o pacto. A Lei escrita em pedra instrui a conduta, mas não possui a força matriz para alterar as disposições internas do ser humano. É uma etapa pedagógica que aponta para a necessidade de uma intervenção interior.
As consequências da quebra dessa aliança são expostas na Terceira Leitura, retirada da profecia de Ezequiel (Ez 37,1-14). O profeta depara-se com uma planície de ossos ressequidos. Esta imagem traduz a dura realidade do exílio e o colapso das instituições de Israel. O povo decreta o seu fim: “nossa esperança acabou”. A passagem demonstra que a reconstrução de uma sociedade em ruínas não acontece por mero esforço sociológico. O Senhor manda o profeta ordenar que o espírito sopre sobre os mortos. A ressurreição daquela multidão atesta que o Espírito de Deus é o real estruturador da vida e da ordem pública. Ele restaura os vínculos comunitários e devolve a capacidade de ação a um povo paralisado pelo fracasso.
A Quarta Leitura, da profecia de Joel (Jl 3,1-5), anuncia a expansão sistêmica deste dom. Historicamente, o Espírito era concedido a líderes específicos para missões temporárias. Joel quebra esse paradigma limitante e anuncia uma promessa universal: “Derramarei o meu espírito sobre todo ser humano”. A lista especifica filhos, filhas, anciãos e servos. A exegese do texto indica a eliminação das barreiras de classe econômica e de gênero no acesso à graça. A salvação é oferecida a “todo aquele que invocar o nome do Senhor”. Esta democratização do Espírito capacita cada membro da comunidade para o testemunho ativo e para a responsabilidade social.
O Salmo Responsorial (Sl 103/104) complementa a visão dos profetas, inserindo a ação do Espírito na manutenção da ordem natural. O refrão “Enviai o vosso Espírito, Senhor, e da terra toda a face renovai” atesta a dependência ontológica das criaturas. O salmista observa que a ausência do sopro divino resulta no imediato retorno ao pó. A criação exige a sustentação constante do Criador. O Espírito Santo atua como o princípio de coesão que preserva e renova a face da terra contra a degradação gerada pelo tempo.
Todo este percurso analítico culmina na pessoa de Jesus Cristo. O Evangelho de São João (Jo 7,37-39) relata o pronunciamento do Mestre na Festa das Tendas. Jesus proclama: “Se alguém tem sede, venha a mim, e beba”. Ele estabelece a si mesmo como o centro da provisão humana. A promessa acrescenta que, daquele que crer, “rios de água viva jorrarão do seu interior”. O evangelista explica que esta água é o Espírito Santo. A análise desta perícope revela que o dom de Deus soluciona o vazio existencial do indivíduo e, simultaneamente, o transforma em fonte de utilidade para os outros. A graça não se estagna; ela flui do crente para o ambiente.
A Vigília de Pentecostes fornece a fundamentação diretiva para a atuação da Igreja. A análise das leituras demonstra que a resposta aos problemas da atualidade exige obediência aos desígnios de Deus. A alternativa cristã é a vivência guiada pelas diretrizes do Espírito. Cabe aos leigos e ao clero operar como instrumentos práticos de comunicação e concórdia. Não podemos ser agentes de divisão; precisamos ser promotores do diálogo e da ética. A nossa missão é assimilar a lógica de Deus, testemunhar a ressurreição em setores de desesperança e permitir que a água do Evangelho irrigue as relações sociais, econômicas e familiares.
Clamamos pelos dons do Espírito Santo em nossa vida e na vida da Igreja. Que a presença contínua do Espírito Santo recrie as nossas forças produtivas e espirituais. Que Ele desça proficuamente sobre a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, sobre o nosso Estado e sobre todo o território do Brasil, estabelecendo a verdadeira paz.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



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