Fabrício Menardi

Terras raras: Ucrânia, Brasil e a nova disputa geopolítica entre China e Estados Unidos


Terras raras: Ucrânia, Brasil e a nova disputa geopolítica entre China e Estados Unidos Jornal Democrata, edição 1924 de 17 de maio de 2026

As chamadas “terras raras” deixaram de ser apenas um tema técnico da mineração para se tornarem um dos principais eixos da rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China. Presentes em smartphones, turbinas eólicas, veículos elétricos, semicondutores, data centers, radares, satélites, mísseis e caças militares, esses minerais passaram a ocupar, no século XXI, papel semelhante ao do petróleo no século XX.

O tema ganhou ainda mais relevância durante o recente encontro entre o presidente norte-americano Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping, em Pequim. Embora a pauta oficial tenha incluído comércio, inteligência artificial, energia e segurança internacional, as terras raras estiveram entre os assuntos mais sensíveis das negociações.

A razão é estratégica: a China domina praticamente toda a cadeia global desses minerais. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) e da S&P Global, o país responde por cerca de 60% da produção mineral mundial e por mais de 90% da capacidade de refino e processamento dos elementos mais estratégicos.

O que são terras raras?

Apesar do nome, as terras raras não são necessariamente escassas. O desafio está na dificuldade técnica e ambiental de extração, separação e processamento industrial. 

O grupo reúne 17 elementos químicos essenciais para tecnologias avançadas.

Entre os mais importantes estão: neodímio;  praseodímio; disprósio;  térbio; lantânio; cério. 

Esses elementos são fundamentais para motores elétricos, ímãs permanentes de alta potência, baterias, equipamentos militares, sistemas de energia renovável e aplicações de inteligência artificial.

A expansão dos carros elétricos, da computação avançada e da transição energética elevou drasticamente a demanda global por minerais críticos. Um veículo elétrico, por exemplo, utiliza muito mais minerais estratégicos do que um automóvel convencional.

Onde estão as maiores jazidas do mundo?

As reservas globais conhecidas encontram-se concentradas em poucos países. Segundo estimativas do USGS, a China lidera amplamente, seguida pelo Brasil.

Maiores reservas estimadas de terras raras

País - Reservas estimadas

China                  44 milhões de toneladas

Brasil                 21 milhões de toneladas

Índia                 6,9 milhões de toneladas

Austrália         5,7 milhões de toneladas

Rússia                 3,8 milhões de toneladas

Vietnã                 3,5 milhões de toneladas

Estados Unidos 1,9 milhão de toneladas

Groenlândia         1,5 milhão de toneladas

Além das reservas, especialistas destacam que o verdadeiro poder estratégico está no domínio tecnológico do processamento industrial. 

E é justamente nessa etapa que a China mantém ampla superioridade global.

A vantagem chinesa

A liderança chinesa não se resume à mineração. O país controla o refino, a separação química e a fabricação de ímãs permanentes — etapas consideradas as mais sofisticadas da cadeia produtiva.

Essa vantagem foi construída ao longo de décadas de investimentos estatais, integração industrial, subsídios e domínio tecnológico. Além disso, muitas jazidas chinesas apresentam características geológicas que tornam a exploração mais barata e eficiente.

Nos últimos anos, Pequim passou a utilizar esse domínio como instrumento estratégico. Restrições de exportação, licenças especiais e controles sobre minerais críticos vêm sendo empregados como mecanismo de pressão econômica e diplomática em meio à disputa tecnológica com Washington.

O temor dos Estados Unidos

Para os Estados Unidos, a dependência chinesa tornou-se uma questão de segurança nacional. Relatórios recentes apontam forte dependência americana em relação a minerais essenciais para a indústria militar, aeroespacial e tecnológica.

Diante disso, Washington iniciou uma ampla estratégia de diversificação da cadeia produtiva, baseada em:

  • abertura de novas minas; 
  • formação de estoques estratégicos; 
  • incentivos industriais; 
  • alianças com países parceiros; 
  • expansão da reciclagem mineral E
  • fortalecimento da indústria doméstica de refino. 

Os EUA também tentam consolidar uma aliança internacional de minerais críticos envolvendo Europa, Canadá, Austrália, Índia e países latino-americanos.

Brasil: o gigante silencioso da mineração estratégica

Nesse cenário, o Brasil passou a ocupar posição central na disputa geopolítica global. Com cerca de 21 milhões de toneladas em reservas estimadas, o país possui a segunda maior reserva conhecida do planeta.

As principais jazidas brasileiras localizam-se em: Goiás;  Minas Gerais;  Bahia;  Amazonas; e áreas do Centro-Oeste e Sudeste. 

O estado de Goiás tornou-se particularmente estratégico devido ao projeto Serra Verde, em Minaçu, considerado um dos mais importantes empreendimentos de terras raras fora da Ásia.

A mina é uma das poucas no mundo capazes de produzir, em escala comercial, os quatro elementos magnéticos mais valiosos para a indústria moderna: neodímio; praseodímio;  disprósio;  e térbio. 

Nos últimos meses, tanto Estados Unidos quanto China intensificaram o interesse econômico e diplomático sobre o setor mineral brasileiro. 

Washington vê o Brasil como peça-chave para reduzir a dependência da cadeia chinesa, enquanto Pequim busca preservar influência sobre futuras fontes globais de suprimento.

O governo brasileiro tenta transformar essa disputa em vantagem estratégica. Autoridades defendem que investidores estrangeiros ampliem o processamento industrial dentro do território nacional, evitando que o país permaneça apenas como exportador de matéria-prima bruta.

Na prática, Brasília busca repetir menos o antigo modelo primário-exportador e agregar maior valor tecnológico à produção mineral brasileira.

Ucrânia: minerais estratégicos em meio à guerra

A Ucrânia também passou a ocupar posição relevante na nova geopolítica mineral. Embora não esteja entre os maiores detentores de terras raras propriamente ditas, o país possui reservas importantes de minerais críticos fundamentais para baterias, defesa e tecnologias avançadas.

Antes da guerra, estudos europeus apontavam que a Ucrânia possuía depósitos relevantes de lítio; titânio; grafite; manganês; urânio;  e minerais estratégicos associados à indústria militar. 

Grande parte dessas reservas encontra-se justamente nas regiões mais afetadas pela guerra contra a Rússia, especialmente no leste ucraniano.

Com isso, a importância estratégica da Ucrânia deixou de ser apenas militar ou territorial. 

Europa e Estados Unidos passaram a enxergar o país também como peça relevante na futura segurança mineral do Ocidente.

O tema tornou-se tão sensível que propostas envolvendo exploração conjunta de minerais críticos chegaram a aparecer nos bastidores diplomáticos relacionados ao conflito.

Groenlândia e o novo tabuleiro do Ártico

Outro território que ganhou enorme importância estratégica é a Groenlândia. Embora possua reservas menores em comparação aos gigantes globais, o território tornou-se alvo crescente de interesse de Washington, Bruxelas e Pequim.

Projetos como Tanbreez são considerados entre os maiores depósitos de terras raras em rocha dura do planeta.

O interesse internacional aumentou devido a dois fatores: o potencial mineral ainda pouco explorado; e a abertura de novas rotas marítimas no Ártico causada pelo derretimento do gelo polar. 

O Ártico passou, assim, a integrar diretamente a nova disputa por minerais estratégicos e influência global.

A reciclagem entra no centro do debate

Outra frente considerada decisiva é a reciclagem de lixo eletrônico. 

Estudos recentes indicam que celulares, discos rígidos, motores elétricos e equipamentos industriais podem se tornar fontes estratégicas de terras raras.

Pesquisas internacionais apontam que, até 2060, a reciclagem poderá suprir parcela significativa da demanda global por neodímio e praseodímio, especialmente nos setores ligados à energia limpa.

Empresas dos Estados Unidos, Canadá e Europa já investem em plantas industriais voltadas à recuperação mineral a partir de sucata eletrônica. Paralelamente, novas tecnologias de inteligência artificial vêm sendo desenvolvidas para automatizar a separação de materiais recicláveis e ampliar a eficiência do reaproveitamento.

O novo petróleo do século XXI

Especialistas internacionais já tratam as terras raras como o equivalente moderno do petróleo no século XX. 

A diferença é que, agora, o poder não depende apenas da posse do recurso natural, mas do controle tecnológico sobre: mineração; refino; inteligência artificial;  semicondutores; defesa; energia renovável; e fabricação industrial avançada. 

A corrida global pelas terras raras redefine alianças internacionais, altera estratégias econômicas e reposiciona países como Brasil, Ucrânia e Groenlândia no centro das grandes disputas geopolíticas contemporâneas.

O resultado dessa competição ajudará a determinar o equilíbrio de poder econômico, tecnológico e militar das próximas décadas




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