Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Domingo de Ramos da Paixão do Senhor


Domingo de Ramos da Paixão do Senhor jornal Democrata, edição 1916 de 29 de março de 2026

Iniciamos com a celebração do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor, a Semana Maior da nossa fé, a Semana Santa. A liturgia deste dia nos envolve em uma atmosfera paradoxal, que transita da exultação festiva à dor profunda do Calvário. Começamos a nossa celebração com a procissão festiva, revivendo a entrada triunfal de Jesus na Cidade Santa (cf. Mt 21,1-11). Vemos o povo que O recebe com ramos nas mãos, estendendo seus mantos pelo chão e entoando cantos de alegria: “Hosana ao Filho de Davi! Bendito o que vem em nome do Senhor!” (Mt 21,9). Porém, a mesma liturgia rapidamente nos conduzirá a um silêncio consternado, mergulhando-nos no mistério do sofrimento ao escutarmos o longo e doloroso relato da Paixão segundo Mateus (Mt 26,14 – 27,66).

Essa mudança abrupta e litúrgica não é um mero recurso retórico da Mãe Igreja, mas uma profunda pedagogia espiritual. Ela revela, antes de tudo, a inconstância da multidão e a fragilidade dos nossos próprios corações, que num dia louvam e aclamam, mas noutro dia se deixam levar pela indiferença ou pelo ódio, clamando: “Seja crucificado!” (Mt 27,22-23). Mais do que isso, a entrada em Jerusalém revela a verdadeira identidade do Messias. Ele cumpre de forma singular a antiga profecia: “Eis que o teu rei vem a ti, humilde, montado num jumento” (Mt 21,5; cf. Zc 9,9). O nosso Rei não se impõe pela força dos exércitos, pela opulência ou pelas armas de guerra, mas pela mansidão extrema e pela entrega total de Si mesmo pela salvação do mundo.

Na primeira leitura – Is 50,4-7 –, o profeta Isaías nos apresenta o tocante cântico do Servo Sofredor, uma prefiguração cristalina da atitude de Cristo diante do flagelo que se aproxima: “Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas” (Is 50,6). O Servo não recua diante da violência do mundo porque a sua confiança está inteiramente enraizada em Deus Pai: “O Senhor Deus é meu auxílio, por isso não me deixei abater” (Is 50,7). Esta fidelidade inabalável nos ensina teologicamente que o sofrimento, quando abraçado por amor e em obediência à vontade divina, torna-se fonte inesgotável de redenção.

A profunda angústia deste Servo ecoa perfeitamente no Salmo responsorial de hoje. Jesus, no auge de sua dor na cruz, consumido fisicamente, reza com as palavras do salmista: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Sl 21[22],2; cf. Mt 27,46). Este brado, que tantas vezes ressoa silenciosamente no coração de tantos irmãos e irmãs nossos mergulhados no desespero da vida moderna, na boca de Jesus é a oração máxima de quem, mesmo na dor extrema, não perde a confiança, entregando a sua vulnerabilidade nas mãos do Criador e fazendo-se solidário com todas as dores da humanidade.

Para que possamos vislumbrar o abismo desse amor imensurável, a segunda leitura nos traz o sublime hino cristológico da Carta de São Paulo aos Filipenses. O Apóstolo – Fl 2,6-11 – nos ensina que Jesus, “existindo em condição divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo” (Fl 2,6-7). Este esvaziamento total, que a teologia chama de kenosis, atinge o seu ápice incomensurável quando Ele “humilhou-se, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz” (Fl 2,8). Não há outro caminho para a glória da ressurreição que não passe pela rudeza do madeiro. É justamente por descer de forma tão radical às profundezas da miséria e do pecado humanos que “Deus o exaltou acima de tudo” (Fl 2,9).

O Evangelho da Paixão – Mt 27,11-54 – nos detalha com crueza cada passo dessa doação voluntária. Acompanhamos Jesus desde os últimos ensinamentos, passando pela agonia e pela amarga traição no Getsêmani (cf. Mt 26,36-56). Vemos a negação de Pedro, que tantas vezes espelha as nossas próprias covardias cotidianas (cf. Mt 26,69-75), e assistimos perplexos à injustiça dos tribunais humanos perante Pilatos (cf. Mt 27,11-26). 

Em cada chaga, vemos o Cordeiro de Deus suportando silenciosamente a zombaria e a coroa de espinhos (cf. Mt 27,27-31). Tudo ocorre não por um capricho do destino, mas em obediência à missão salvífica, como Jesus mesmo alerta aos seus captores nas trevas do Horto das Oliveiras: “Tudo isso aconteceu para se cumprirem as Escrituras dos profetas” (Mt 26,56). 

Quando Ele, por fim, rende o seu espírito, e o véu do santuário se rasga de alto a baixo (cf. Mt 27,51), a barreira entre Deus e a humanidade cai por terra para sempre. A entrega é tão majestosa que arranca do centurião pagão, aos pés da cruz, a mais pura profissão de fé: “Verdadeiramente, este era o Filho de Deus!” (Mt 27,54).

A Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo não é uma mera recordação histórica do passado; ela é um mistério vivo, que se prolonga nos dias de hoje no sofrimento do Seu Corpo Místico, a Igreja, e de modo especial nas chagas dos mais pobres e descartados de nossa sociedade. Neste Domingo de Ramos, em que refletimos sobre a entrega do Senhor, a Igreja no Brasil conclui seu tempo forte de conscientização com o Dia Nacional da Coleta da Solidariedade, gesto concreto e transformador da Campanha da Fraternidade de 2026 sobre a moradia e o encontro com Aquele que veio morar entre nós.

Neste ano, iluminados pelo Evangelho de São João, com o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), fomos convocados a refletir sobre o tema “Fraternidade e Moradia”. O mesmo Cristo que se esvaziou de sua glória eterna, que nasceu sem encontrar lugar na hospedaria de Belém e que foi crucificado fora das muralhas, identifica-se profundamente com as multidões que ainda hoje peregrinam sem um teto adequado para proteger suas famílias. Como nos alerta a Igreja nesta Campanha, a falta de um teto digno não é apenas uma carência material; ela é a expressão concreta da exclusão social que fere de morte a dignidade de filhos e filhas de Deus.

Devemos ter consciência cristã de que a moradia é a porta de entrada para os demais direitos sociais. Sem ela, faltam a segurança, a saúde, a educação e a própria possibilidade de um convívio familiar estruturado. Quando contemplamos o Senhor pregado e despojado de tudo na cruz, nosso coração pastoral não pode ficar indiferente a tantas famílias que habitam em áreas de risco ou que sobrevivem na invisibilidade das nossas ruas. Aclamar o “Hosana” com os nossos ramos nas mãos exige de nós o firme compromisso de sermos construtores de justiça. Os frutos da nossa penitência quaresmal, partilhados na Coleta de Solidariedade deste domingo e destinados aos Fundos Diocesano e Nacional de Solidariedade, são o nosso “sim” para que ações concretas garantam que nossos irmãos tenham onde reclinar a cabeça.

Convido-os a entrar nesta Semana Santa com a alma descalça e os olhos fixos em Jesus. Façamos destes dias um verdadeiro retiro espiritual nas nossas paróquias. Participem ativamente das liturgias do Tríduo Pascal: o Lava-pés, a Adoração da Santa Cruz e a Vigília da Ressurreição. Que os ramos abençoados, levados hoje para as suas casas, não sejam guardados como amuleto, mas permaneçam visíveis como o compromisso inabalável de que o seu lar é habitado por Cristo, e de que nossa vocação é lutar para que a moradia digna seja realidade para todos.

Caminhemos nestes dias sob o olhar amparo da Virgem Maria, a Senhora das Dores, que esteve de pé junto à cruz de seu Filho, sustentando a fé da nascente Igreja. Que ela interceda por nós, nos ensine a não fugir diante do sofrimento dos nossos irmãos, para que, perseverando no amor até o fim, possamos proclamar com exultação a vitória do Cristo Ressuscitado.

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




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