Fabrício Menardi
O Equilíbrio do Fogo: Guerra Assimétrica e a Lenta Combustão do Conflito com o Irã
Jornal Democrata, edição 1915 de 21 de março de 2026 Nos últimos dias de março de 2026, a guerra envolvendo o Irã consolidou-se como um dos conflitos mais complexos e ambíguos do cenário internacional contemporâneo, escapando deliberadamente às formas clássicas de confronto entre Estados.
Longe de uma ofensiva total ou de uma campanha com objetivos territoriais claros, o que se desenha é uma escalada controlada, marcada por ações indiretas, ataques cirúrgicos e uma constante tensão nas infraestruturas estratégicas do Golfo.
Instalações energéticas, rotas marítimas e pontos logísticos tornaram-se alvos preferenciais, não necessariamente para sua destruição definitiva, mas como instrumentos de pressão política e econômica em um tabuleiro global interdependente.
Essa configuração revela, com particular nitidez, a lógica da guerra assimétrica.
Consciente da superioridade militar esmagadora dos Estados Unidos e da capacidade tecnológica e operacional de Israel, o Irã evita deliberadamente o confronto direto em larga escala. Em vez disso, constrói sua estratégia sobre a dispersão do conflito, utilizando redes de aliados e grupos armados que operam em múltiplos territórios, do Levante ao Golfo Pérsico.
A guerra deixa, assim, de ser um embate linear entre exércitos regulares e passa a se manifestar como uma constelação de episódios interligados, frequentemente ambíguos quanto à autoria e intencionalidade.
É nesse ponto que a análise contemporânea encontra eco na obra The Baroque Arsenal, que descreve a transformação da guerra moderna a partir da metáfora do barroco: um sistema marcado pela complexidade, pela sobreposição de formas e pela multiplicidade de instrumentos.
O conceito de “arsenal barroco” ajuda a compreender como conflitos atuais abandonam a simplicidade das linhas de frente bem definidas e passam a operar por meio de camadas simultâneas de ação — militares, informacionais, econômicas e simbólicas.
No caso iraniano, essa lógica se manifesta de maneira particularmente evidente.
Drones de baixo custo, mísseis de médio alcance e operações indiretas tornam-se instrumentos centrais nesse modelo. São armas que, embora limitadas em poder destrutivo comparadas aos arsenais convencionais das grandes potências, possuem alto valor estratégico por sua capacidade de saturar defesas, gerar incerteza e impor custos contínuos ao adversário.
Mais do que vencer batalhas, trata-se de moldar o ambiente da guerra, prolongando-a e tornando-a politicamente onerosa para o inimigo.
Nesse sentido, o tempo surge como um aliado decisivo de Teerã: quanto mais longa a guerra, maior a probabilidade de fissuras na coesão dos adversários.
Do outro lado, os Estados Unidos enfrentam um dilema estratégico recorrente em conflitos assimétricos.
Sua superioridade militar é indiscutível, capaz de neutralizar alvos críticos e impor perdas significativas em curto espaço de tempo.
No entanto, essa mesma superioridade torna-se menos eficaz quando o inimigo se recusa a oferecer um campo de batalha convencional.
A opção por uma escalada massiva — com potencial para derrubar o regime iraniano ou destruir suas capacidades militares centrais — permanece tecnicamente viável, mas politicamente arriscada e estrategicamente incerta.
A memória de intervenções prolongadas no Oriente Médio, com seus custos humanos, financeiros e reputacionais, atua como um freio poderoso sobre decisões mais radicais.
Esse cálculo é agravado pela postura hesitante de aliados.
A expectativa de uma coalizão robusta, capaz de dividir responsabilidades e legitimar uma ação mais ampla, não se concretizou plenamente. Países europeus mantêm apoio diplomático e retórico, mas demonstram clara relutância em se envolver diretamente em operações militares. No plano regional, a ambiguidade é ainda mais evidente. Potências como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, historicamente alinhadas aos interesses de contenção do Irã, adotam uma postura cautelosa, conscientes de sua vulnerabilidade a ataques retaliatórios e do impacto devastador que uma guerra ampliada poderia ter sobre suas economias altamente dependentes da estabilidade energética.
Nesse contexto, Israel emerge como o ator mais disposto a agir de forma assertiva.
Suas operações, frequentemente cirúrgicas e baseadas em inteligência sofisticada, visam degradar capacidades específicas do Irã, sobretudo em áreas sensíveis como infraestrutura energética e sistemas militares avançados.
Ainda assim, mesmo essa postura ofensiva encontra limites claros.
A multiplicidade de frentes — que inclui a possibilidade de ataques vindos de diferentes direções e por diferentes atores — impõe um estado permanente de alerta e dificulta a obtenção de ganhos estratégicos duradouros.
O resultado dessa interação entre contenção, agressividade seletiva e dispersão do conflito é a cristalização de uma guerra de desgaste.
Não se trata de um impasse no sentido tradicional, mas de uma dinâmica em que nenhum dos lados consegue transformar suas vantagens em uma vitória decisiva.
Para o Irã, a sobrevivência do regime e a manutenção de sua capacidade de influência regional já configuram um sucesso estratégico relevante. Para os Estados Unidos, por outro lado, a ausência de uma vitória clara levanta questionamentos sobre os objetivos e os custos de sua presença no conflito.
A duração da guerra, nesse cenário, tende a se estender por meses ou mesmo anos. Conflitos assimétricos são, por natureza, resilientes ao encerramento rápido. Eles se alimentam de sua própria continuidade, adaptando-se às respostas do adversário e explorando suas vulnerabilidades políticas e econômicas.
Cada ataque, cada retaliação, cada episódio de escalada contribui não para uma resolução, mas para a perpetuação de um estado de tensão controlada, no qual a guerra nunca é total, mas tampouco desaparece.
Diante disso, a questão de quem vencerá torna-se menos relevante do que a compreensão de como cada ator define vitória.
Em termos estritamente militares, os Estados Unidos mantêm uma vantagem incontestável. Contudo, a guerra moderna — especialmente em sua forma assimétrica — raramente se resolve apenas pela força.
A capacidade de resistir, de impor custos ao adversário e de evitar uma derrota decisiva pode ser tão ou mais importante do que a conquista de objetivos tangíveis.
Sob essa perspectiva, o Irã demonstra uma notável aptidão para transformar sua relativa fraqueza em um instrumento de equilíbrio.
Assim, o conflito atual não aponta para um desfecho claro, mas para uma espécie de permanência instável.
Um estado em que a guerra se integra ao cotidiano da política internacional, influenciando mercados, alianças e decisões estratégicas em escala global.
Não há, por ora, sinais de uma ruptura decisiva — seja na forma de uma escalada total, seja por meio de uma negociação abrangente.
O que se impõe é a continuidade de um confronto que, mais do que buscar a vitória, parece organizado em torno da gestão do próprio conflito, como se a guerra, em si, tivesse se tornado o seu próprio equilíbrio.
Fabrício Menardi. Doutor em Ciência Política pela Unicamp. Chefe do Gabinete Parlamentar na Câmara Municipal de São José do Rio Pardo.



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