Jonatas Outeiro

A Graça Transformadora de Jesus


A Graça Transformadora de Jesus Jornal Democrata, edição 1912 de 28 de fevereiro de 2026

Vivemos em tempos em que a palavra “graça” é frequentemente mencionada, mas nem sempre corretamente compreendida. Muitos a tratam como um alívio superficial da consciência, uma promessa de benefícios sem arrependimento, uma oferta de céu sem cruz. Essa é a graça barata dos evangelhos modernos — moldada ao gosto humano, sem poder transformador. 

Em contraste, a graça revelada nas Escrituras é santa, poderosa e eficaz. Ela nos alcança como somos, mas jamais nos deixa como estamos. É sobre essa graça verdadeira, que salva, corrige e conduz à obediência, que somos chamados a refletir.

O encontro de Jesus com a mulher samaritana, narrado em João 4.19–30, é um dos relatos mais ricos do Evangelho. Nele vemos o Salvador rompendo barreiras culturais, religiosas e morais para alcançar um coração perdido. Esse texto mostra como Deus conduz um pecador da ignorância espiritual à fé salvadora, não por mérito humano, mas pela iniciativa graciosa de Cristo. A salvação é obra da graça soberana de Deus, que confronta o pecado, revela Cristo, gera adoração verdadeira e impulsiona o testemunho. 

Deus busca adoradores, não porque os encontre prontos, mas porque Ele mesmo os forma pela graça. João Calvino comenta: “Cristo não espera que os homens se aproximem dele por si mesmos, mas vai ao encontro deles quando estão afastados e dispersos.” Desde o início, aprendemos que a salvação é iniciativa soberana de Deus e não resposta espontânea da natureza humana.

A graça soberana de Deus revela a verdade ao coração do pecador, produz adoração verdadeira e o transforma em testemunha eficaz de Cristo. Essa graça desmascara a religiosidade, como vemos nos versículos 19–20. 

Ao perceber que Jesus conhece sua vida, a mulher tenta desviar a conversa para uma controvérsia religiosa sobre o local correto de adoração. Essa atitude revela como o coração humano usa a religião para evitar o arrependimento verdadeiro. Isso confirma a doutrina da depravação total: até a religião é corrompida pelo pecado. O coração humano é enganoso (Jeremias 17.9), e mesmo assuntos espirituais podem ser usados para fugir da verdade. 

A pergunta sobre o “lugar certo” revela uma fé herdada, tradicional, mas não regenerada. O homem natural, mesmo religioso, não busca a Deus corretamente (Romanos 3.11). A graça precisa confrontar antes de curar.

Jesus então redefine a adoração (vv. 21–24). Ele desloca o foco do onde para o como e o quem da adoração. Corrige tanto judeus quanto samaritanos e ensina que a adoração não está presa a lugares, mas à revelação de Deus. O problema não era o monte, mas o coração. 

A verdadeira adoração é em espírito — não mero ritual externo, mas fruto da obra regeneradora do Espírito Santo — e em verdade, regulada pela revelação correta de Deus, culminando em Cristo. Somente se adora em Espírito e em Verdade se obedecermos à Palavra de Deus. A verdadeira adoração só é possível após a regeneração. O Espírito Santo capacita o homem a responder corretamente à verdade revelada (1 Coríntios 2.14). Calvino afirma: “Cristo remove todas as cerimônias externas para mostrar que Deus exige um culto espiritual, o qual não pode existir senão onde o Espírito reina.” A verdadeira adoração não nasce da vontade humana, mas da regeneração operada pelo Espírito.

Nos versículos 25–26, vemos que a graça se revela pessoalmente em Cristo. Este é um dos momentos mais claros de autorrevelação messiânica de Jesus. A iniciativa é totalmente de Cristo. Ela não descobriu o Messias; o Messias se revelou a ela. Jesus não fala em parábolas, mas declara abertamente quem Ele é. 

A fé verdadeira nasce da revelação, não da especulação. Não basta esperar o Messias; é preciso reconhecê-lo quando Ele se revela. A fé não depende do arbítrio humano, mas da revelação que Deus faz de si mesmo em Cristo. 

Cristo se dá a conhecer àqueles que o Pai lhe deu (João 6.37). Ninguém pode chegar a Cristo se não for atraído pelo Pai, porque a salvação é fruto da revelação eficaz, não de uma decisão autônoma.

Por fim, a graça transforma o pecador (vv. 27–30). A mudança é imediata e visível. A mulher deixa seu cântaro — símbolo de prioridades transformadas. A água viva superou a água do poço. Em Cristo, nossa vida encontra novo sentido e, com ele, novas prioridades. Seu testemunho é simples, mas eficaz. Ela não domina teologia sistemática, mas testemunha de um encontro real. 

De pecadora marginalizada, torna-se instrumento de Deus. Muitos samaritanos vão a Jesus por causa do testemunho dela. Deus usa instrumentos improváveis para sua glória. A graça que salva é a mesma que envia. Os eleitos são chamados para glorificar a Deus, proclamando a Cristo. A eleição não anula a missão, mas a fundamenta.

Este texto nos desafia a examinar nossa fé: é um debate religioso ou uma submissão real a Cristo? Nossa adoração nasce do coração regenerado e está alinhada à verdade bíblica? Cristo continua se revelando pela Palavra. Não espere sinais; ouça a voz do Senhor nas Escrituras. Todo verdadeiro encontro com Cristo gera testemunho. Se a graça o alcançou, sua vida anunciará isso. Deus usa os recém-convertidos, os tímidos, os improváveis — para sua glória.

A Palavra de Deus nos mostra que a salvação não começa no homem, mas em Deus. Cristo busca, confronta, revela-se, regenera e envia. A mulher samaritana não foi apenas convencida — foi transformada. A graça soberana que a encontrou junto ao poço continua operando hoje, chamando pecadores à verdadeira adoração e ao testemunho fiel. 

Cristo busca pecadores para fazer deles adoradores — e adoradores para fazer deles testemunhas. Como resume Calvino: “Cristo não apenas nos chama para crer nele, mas nos reforma inteiramente para vivermos para a glória de Deus.” Que o mesmo Senhor que se revelou à mulher samaritana continue se revelando hoje, pela sua Palavra, para a glória exclusiva de Deus, pois “Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la…” (Filipenses 1.6).

Rev. Jônatas OuteiroRev. Jônatas Outeiro, pastor da Igreja Presbiteriana de Mococa



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