Vereador gasta mais de R$ 2 mil em única viagem a São Paulo
Vereador Marcelo Clementino e imagens da reportagem O vereador Marcelo Clementino divulgou em suas redes sociais ter ido a São Paulo em busca de verbas para a ONG que dirige, a Morar Bem.
Em suas postagens, mostrou imagens da viagem e declarou estar “em busca de recursos pra ONG Morar Bem” e “planejamento para a ONG Morar Bem”.
A questão ganha relevância por dois aspectos:
O vereador se apresenta como gestor da ONG, o que torna questionável que, em sua função pública, atue para que a entidade receba título de utilidade pública e, consequentemente, acesso a verbas municipais e estaduais.
Embora tenha solicitado autorização da Câmara alegando viagem de interesse do Município, suas próprias publicações mostraram atuação em favor de interesse privado.
Clementino viajou a São Paulo em 29 de julho e retornou no dia seguinte. A Câmara Municipal enviou ao Democrata a íntegra da prestação de contas da viagem.
Alguns pontos chamaram atenção:
- Em 30 de julho, jantando sozinho na Churrascaria Apaloosa, em Nova Odessa, Clementino gastou R$ 234. O restaurante fica cerca de 70 km fora da rota declarada.

- No almoço do mesmo dia, optou pelo tradicional centenário restaurante Rei do Filé, em São Paulo, onde pagou R$ 249,30 por um filé com palmito na manteiga, além de R$ 23,80 em um Petit Gateau de sobremesa.
- Para a viagem, a Câmara alugou um Volkswagen Polo Track, ao custo de R$ 749,99, embora o Município disponha de veículos oficiais.

- A hospedagem também gerou dúvidas: a nota fiscal do hotel aponta três diárias entre 29 e 30 de julho, ainda que conste apenas um hóspede. Questionado, o vereador alegou que chegou antes do check-in e saiu depois do check-out. Entretanto, a própria nota mostra sua saída às 9h da manhã do dia 30, antes do horário regular de encerramento da diária.

No total, a viagem custou quase R$ 2.300 aos cofres públicos.
Parte desse valor, contudo, terá de ser devolvida: como a Câmara não admite gastos superiores ao teto de duas Unidades Fiscais do Município para alimentação em um único dia (cerca de R$ 350), Clementino terá de devolver R$ 567,07.
Almoço foi no Rei do Filet, tradicional e centenário restaurante paulistano que já serviu, entre outros, Papa João Paulo II. O prato foi Filé com Palmito na manteiga, cuja imagem segue abaixo:

Imagem de divulgação do restaurante - prato consumido pelo vereador
A janta foi em uma churrascaria em Nova Odessa - divergindo em torno de 70 Km da rota entre São José do Rio Pardo e São Paulo. Abaixo imagem de divulgação do restaurante:

Imagem de divulgação - churrascaria Apaloosa' s de Nova Odessa
As versões apresentadas pelo vereador em suas redes sociais e na prestação de contas divergem. Se o que disse nas redes sociais é verdadeiro, omitiu ou prestou declaração diversa da que deveria em sua prestação de contas, que não menciona a busca de recursos para sua ONG.
Nas redes, a repercussão foi imediata. Amigos e parentes defenderam Clementino, alegando que, se gastou R$ 500 em refeições, poderia trazer R$ 5 mil em verbas. O vereador, por sua vez, disse ao Democrata que “vai trazer recursos”, mas não soube informar valores, prazos, origem ou mesmo destinação.
Questionado sobre a pasta exibida em foto com a secretária estadual de Esportes, Clementino enviou um requerimento assinado pelo secretário municipal de Esportes, Iury Feres Abrão, em 13 de março de 2025, solicitando à Casa Civil um ônibus para projetos esportivos. Segundo o vereador, foi o documento que foi discutir com a secretária.

Dois pontos chamam atenção:
- O documento foi assinado meses antes da viagem, e não pelo vereador;
- O destinatário era a Casa Civil, e não a Secretaria de Esportes, onde o vereador esteve.
Segundo o próprio Clementino, tratou-se do pedido de Iury Abrão, a quem caberia, ao final, o mérito pela conquista do ônibus. Quando solicitado a apresentar outros documentos que teria levado, disse que “estão no computador da Câmara, em pasta com senha”.
Em respostas aos questionamentos do jornal, Clementino afirmou:
DEMOCRATA: Este gasto não é excessivo para quem se mostra dando pão com manteiga e suco para crianças em atividades esportistas sociais?
CLEMENTINO: Acho que você deveria visitar o projeto e se inteirar do que está acontecendo lá (...)eles NUNCA comeram esse tipo de lanche mencionado por você, e NUNCA tomaram suco;
DEMOCRATA: Nas notas o Hotel cobrou 3 diárias entre os dias 29 e 30. Gostaria de compreender como uma única pessoa, em uma virada de dia, gastou 3 diárias. Se puder explicar, será mencionado na matéria.
CLEMENTINO: Acho q deveria ir a público esse demonstrativo onde consta e você pode ler com seus bons olhos a quantidade de 1 pessoa*, a entrada foi na manhã do dia 29 e a saída na tarde do dia 30, a descrição está lá feita no relatório do Hotel, aliás lá consta o número do Hotel e convido o Sr a ligar lá e perguntar o porque da DISCRIMINAÇÃO DAS DIÁRIAS
*A nota fiscal apresenta o vereador como “hóspede principal” e cobra 3 diárias. A reportagem ligou no Hotel que recusou-se a dar informações sobre hospedagens de hóspedes. A nota ainda mostra que foram mais de uma fonte pagadora - 2 Pix na maquininha de cartão e um cartão de débito. A nota fiscal foi emitida, como se vê no documento, às 9h do dia 30, diferente do que alegou o vereador.
DEMOCRATA: Como vereador o Sr. publicou, e temos salvo, imagens com políticos desta viagem mencionando que foi pedir verba para a ONG MORAR BEM, que é dirigida pelo Sr. e tem um filho seu na presidência. Não há um conflito de interesses nesse caso? O Sr. acha apropriado que uma ONG controlada pelo Sr. e sua família receba verbas públicas?
CLEMENTINO: Fui a SP na busca de verbas para Secretaria de Esportes para projetos voltados a escolinha da cidade, e na oportunidade relatei a Coronel como captar recursos para entidades, o que nunca escondi de ninguém do trabalho que temos aqui com as crianças, também fomos firmar com a coronel Helena para seu conhecimento o pedido feito por mim** sobre um micro ônibus para a SEMEL
** O pedido do micro ônibus não foi feito pelo vereador Clementino. Ele próprio enviou o documento que vai nesta página, feito em março e assinado pelo secretário de Esporte Iury Feres Abrão como o que estava na sua pasta no momento da foto e objeto da visita.
DEMOCRATA: Terminando, o Sr. sempre diz que por meio de sua ONG não precisa de um centavo de dinheiro público para ajudar as crianças. Se nao precisa, porque está trabalhando para começar a receber?
CLEMENTINO: Pelo Homem inteligente que o Sr é acredito que a pergunta é pra tumultuar , mas respondo com o maior prazer do mundo (...), não quero e não vou reivindicar nenhum centavos dos cofres públicos, a UTILIDADE PÚBLICA é pra ir mais longe (...), você e seu amigo da Página Orgulho de ser Riopardense irão ficar muito mais incomodado porque o passo da ONG MORAR BEM comandado hoje pelo meu Filho vai em busca da UTILIDADE MUNICIPAL E FEDERAL. A ONGMORARBEM será reconhecida na nossa cidade por fazer o bem e não disseminar a MALDADE, LEIA O LEMA QUE TRABALHAMOS A MAIS DE 16 ANOS DR.ENQUANTO VIVER FAÇA O BEM.”
(a resposta foi por mensagens, mantida a redação dada pelo vereador)
As mesmas imagens usadas pelo vereador em suas redes sociais foram usadas na prestação de contas apresentadas à Câmara Municipal.

Nas redes sociais o vereador deixou claro que foi buscar recursos para ONG dirigida por seu filho.

Na prestação de contas, omitiu o interesse e a existência da ONG nas negociações com os políticos e fez constar declarações de interesse público, vagas e imprecisas. O vereador não quis apresentar os tais documentos pois, segundo ele, estariam trancados com senha em um computador na Câmara Municipal.
Clique AQUI e acesse a íntegra da prestação de contas da viagem do vereador, que só viajou com autorização prévia dos colegas.
Clementino já avisou: agora vai passar três dias em Brasília - tudo pago pela Câmara. Vai tratar, segundo disse a reportagem, de obter título de “utilidade pública” federal para sua ONG.
Fernando Gomes, vereador e membro da comunidade Católica Presença, é o corregedor da Câmara. Cabe a ele, se assim o entender, instaurar procedimento para apurar a conduta do colega.
Ou não...







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