Jonatas Outeiro

Ser Membro da Igreja é Pertencer a Cristo e Servir ao Seu Corpo


Ser Membro da Igreja é Pertencer a Cristo e Servir ao Seu Corpo Jornal Democrata, edição 1939 de 12 de setembro de 2026

Vivemos em umaépoca em que a palavra “membro” pode assumir significados muito diferentes.Podemos ser membros de uma associação, de um clube, de uma organização ou de umgrupo que nos oferece determinados benefícios. Nesse contexto, existe o perigode transportarmos para a igreja uma compreensão que não lhe pertence. A igrejade Cristo não é uma associação religiosa à qual simplesmente nos vinculamos,nem uma instituição da qual somos clientes. Ser membro da igreja é algoinfinitamente mais profundo: significa pertencer a Cristo, fazer parte de seucorpo e viver debaixo de seu senhorio.

Essacompreensão começa com uma verdade fundamental: a igreja pertence a Cristo. Elemesmo declarou: “Edificarei a minha igreja” (Mt 16.18). Portanto,ninguém se torna membro da igreja para ter acesso a um produto religioso,receber serviços espirituais ou satisfazer suas preferências pessoais. Somosincorporados a uma comunidade que pertence ao Senhor. A pergunta fundamental domembro da igreja, portanto, não deve ser “O que a igreja pode oferecer-me?”,mas “Como posso servir a Cristo e ao seu povo?”.

Essa mudançade perspectiva é profunda. O consumidor procura aquilo que lhe agrada; odiscípulo procura obedecer ao seu Senhor. O freguês avalia o serviço querecebeu; o servo pergunta como pode servir. O associado espera benefícios desua associação; o cristão reconhece os privilégios que recebeu e responde aeles com gratidão, compromisso e dedicação. Quando a mentalidade de consumidorentra na igreja, Cristo deixa de ser o centro e o indivíduo passa a ocupar esselugar. A igreja passa a ser avaliada por aquilo que oferece, e não pelafidelidade com que honra seu Senhor.

A Escrituraapresenta uma visão muito diferente. Paulo ensina que os cristãos são “membrosuns dos outros” (Rm 12.5) e que a igreja é o corpo de Cristo. Essa imagemnos conduz a uma compreensão muito mais rica da membresia. Um membro não é umaparte independente que decide isoladamente o que fazer; ele está organicamenteunido ao corpo. Sua vida está relacionada à vida dos demais membros. O queafeta um repercute sobre os outros. A alegria de um pode tornar-se alegria detodos; o sofrimento de um deve despertar a compaixão dos demais. A igreja,portanto, não é uma multidão de indivíduos que simplesmente frequentam o mesmolugar, mas um povo unido em Cristo.

Ser membro daigreja significa dizer publicamente: “Eu pertenço a Cristo e quero caminhar como seu povo.” Essa afirmação envolve fé, compromisso e responsabilidade. Omembro não apenas aparece quando lhe convém; ele assume seu lugar no corpo. Eleparticipa da adoração, submete-se à Palavra, cultiva a comunhão, recebe cuidadopastoral, aceita a correção, serve aos irmãos e procura crescer em santidade. Amembresia cristã não é apenas um nome registrado em um rol; é uma vidacompartilhada debaixo do governo de Cristo.

Por isso, amembresia está inseparavelmente ligada ao discipulado. Jesus não chamou pessoassimplesmente para frequentarem reuniões, mas para serem seus discípulos: “Sealguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”(Mt 16.24). Ser membro da igreja significa assumir essa caminhada. O cristãopertence a Cristo antes de pertencer à igreja local, mas justamente porquepertence a Cristo ele não pode desprezar o seu corpo. A união com Cristo conduznecessariamente à comunhão com aqueles que também pertencem a ele.

Essa verdadetransforma também nossa compreensão do culto. O membro não vai ao cultosimplesmente para receber algo que lhe agrade. Ele vai para encontrar-se com opovo de Deus diante do seu Senhor, ouvir sua Palavra, adorá-lo e oferecer-lhesua vida. O culto deixa de ser uma experiência de consumo religioso e torna-seum ato de submissão e adoração. Não perguntamos apenas se o culto nos agradou,mas se Deus foi honrado, se sua Palavra foi proclamada e se nosso coração foichamado a uma vida mais fiel diante dele.

O mesmoprincípio se aplica à pregação. O membro da igreja não se aproxima da Palavracomo quem escolhe entre diferentes produtos religiosos. Ele se aproxima comoovelha que precisa ouvir a voz de seu Pastor. Quando a Escritura confrontanossos desejos, somos chamados a nos submeter. Quando consola nossos temores,somos chamados a confiar. Quando corrige nossos caminhos, somos chamados aoarrependimento. Quando revela a beleza de Cristo, somos chamados a adorá-lo. Amaturidade cristã nasce quando deixamos de perguntar se a Palavra confirmaaquilo que queremos e começamos a perguntar se estamos dispostos a obedeceràquilo que Deus diz.

A membresiatambém nos ensina que temos responsabilidades uns para com os outros. Pauloescreve: “Levai as cargas uns dos outros” (Gl 6.2). O membro saudávelnão vive apenas preocupado consigo mesmo. Ele observa, aproxima-se, encoraja,serve e ajuda. Ele sabe que a igreja não é um lugar onde todos existem paraatender às suas necessidades, mas uma família na qual cada um recebe dons paraservir aos demais. “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom querecebeu” (1Pe 4.10).

É aqui quepercebemos como uma compreensão bíblica da membresia contribui para a saúde daigreja. Uma comunidade formada por consumidores torna-se inevitavelmenteexigente, individualista e frágil. Cada pessoa pergunta o que está recebendo,se suas preferências estão sendo atendidas e se a igreja corresponde às suasexpectativas. Uma comunidade formada por discípulos, porém, pergunta como podeservir, como pode amar, como pode crescer em santidade e como pode contribuirpara a edificação do corpo de Cristo.

Quando osmembros compreendem que pertencem uns aos outros em Cristo, a comunhão sefortalece. O egoísmo dá lugar ao serviço; a indiferença dá lugar ao cuidado; acrítica dá lugar à oração; a passividade dá lugar à participação. A igrejatorna-se mais saudável não porque todos pensam da mesma maneira em questõessecundárias, mas porque todos reconhecem o mesmo Senhor e desejam viver debaixode sua Palavra.

Isso tambémnos ajuda a compreender o lugar da liderança e da disciplina na igreja.Pastores e presbíteros não são funcionários contratados pelos membros paraadministrar uma organização religiosa. São servos de Cristo chamados apastorear suas ovelhas. Da mesma forma, os membros não são clientes que podemsimplesmente exigir aquilo que desejam. Existe uma relação de cuidado,autoridade espiritual, responsabilidade e amor. A disciplina, quando necessáriae exercida biblicamente, não é uma invasão da vida do membro, mas uma expressãodo compromisso da igreja com a santidade e com o bem espiritual daqueles queCristo confiou ao seu cuidado.

A membresia,portanto, envolve compromisso. Há algo profundamente belo em dizer: “Esta é aminha igreja; estes são os meus irmãos; este é o povo com o qual Deus me chamoupara caminhar.” Isso significa permanecer também quando servir custa, quandosurgem dificuldades, quando somos contrariados ou quando precisamos aprender aperdoar. A igreja saudável não é aquela em que nunca existem problemas, masaquela em que os problemas são enfrentados à luz do evangelho, com humildade,verdade, amor e disposição para a reconciliação.

Refletir sobreo que significa ser membro da igreja é uma reflexão sobre o que significapertencer a Cristo. Se Cristo é nosso Senhor, não podemos tratá-lo como umaopção religiosa entre muitas. Se somos seu corpo, não podemos viver como partesisoladas. Se sua Palavra é nossa autoridade, não podemos submeter a igreja àsnossas preferências. Se fomos chamados para servi-lo, não podemos permanecerpermanentemente na posição de quem apenas recebe.

Ser membro daigreja é um privilégio porque significa pertencer ao povo de Cristo. É tambémuma responsabilidade, porque significa viver para Cristo no meio de seu povo. Overdadeiro membro não pergunta apenas: “O que posso receber da igreja?”, mas:“Como posso servir ao meu Senhor por meio da igreja?” Não se vê como consumidorde uma experiência religiosa, mas como discípulo chamado à santidade, servochamado ao serviço e membro chamado à edificação do corpo.

Quando essaverdade é recuperada, a igreja deixa de ser vista como um lugar ao qual vamos epassa a ser compreendida como um povo ao qual pertencemos. O culto deixa de serum serviço que consumimos e passa a ser uma adoração que oferecemos. A comunhãodeixa de ser uma conveniência e passa a ser uma responsabilidade. O ministériodeixa de ser tarefa de alguns e passa a ser vocação de todo o corpo. E amembresia deixa de ser apenas uma formalidade para tornar-se uma expressãoconcreta de nossa união com Cristo.

Que Deus nosconceda compreender novamente a grandeza desse privilégio. Somos membros docorpo de Cristo. Pertencemos a ele e, por pertencermos a ele, pertencemos unsaos outros. Que nossa membresia seja marcada não pelo espírito de consumo, maspela fé; não pela passividade, mas pelo serviço; não pela busca de benefícios,mas pela gratidão; não pela centralidade de nós mesmos, mas pela centralidadede Cristo.

Pois a igrejaserá saudável quando seus membros compreenderem que não estão nela simplesmentepara receber, mas para pertencer, adorar, servir e viver para a glória daquelea quem pertencem. E quanto mais profundamente compreendermos que somos deCristo, mais profundamente desejaremos amar seu corpo, servir seu povo e tornarconhecido o seu nome.

 



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