O Jejum do coronel
Imagem da Crônica do Zildão / I.A. Na quaresma naquele ano o assunto não era outro: jejum. Mas não qualquer jejum — o do Coronel. Se achava dono da cidade que Zildão morava, carro importado e opinião pra tudo, ele fazia questão de contar, em cada roda, o tamanho do sacrifício que vinha cumprindo.
— Cortei carne, cortei doce, cortei até o cafezinho — dizia, com o peito estufado, como quem coleciona medalha invisível. — Disciplina é pra poucos.
Na padaria, onde a conversa corre solta e ninguém precisa provar nada pra ninguém, ele repetiu o discurso. Alguns balançaram a cabeça, outros fingiram interesse. Zildão, encostado no balcão, só ouvia, mexendo o café devagar.
O Coronel percebeu o silêncio dele e não deixou passar.
— E você, Zildão? Fez jejum também ou nem sabe o que é isso?
A mesa deu aquela aquietada de curiosidade. Zildão coçou a cabeça, pensou um pouco, como quem escolhe palavra com cuidado.
— Fiz sim.
Coronel sorriu de canto.
— E do quê você abriu mão?
Zildão tomou um gole, apoiou a xícara e respondeu sem pressa:
— Fiquei sem falar mal dos outros.
Teve gente que riu, achando graça. O Coronal também.
— Só isso?
Zildão deu de ombros.
— Só… mas foi difícil.
O riso foi diminuindo aos poucos. Zildão continuou, sem mudar o tom:
— Teve dia que deu vontade. Às vezes a gente vê coisa errada, escuta história, dá coceira na língua. Mas aí eu lembrava… e engolia.
Agora ninguém mais ria.
— E adiantou? — insistiu o Coronel, meio atravessado.
Zildão olhou em volta, como quem mede o peso do que vai dizer.
— Pra mim, adiantou. Acho que fiquei mais leve. E, pelo que eu vi, ninguém ficou mais pesado por minha causa.
A padaria ficou em silêncio. Não era aquele silêncio constrangido, mas o outro — o que chega quando a verdade senta à mesa sem pedir licença.







COMENTÁRIOS