Interesse de um versus interesse de muitos
A semana também trouxe em Mococa um exemplo claro de como o papel dos vereadores pode influenciar diretamente a vida das comunidades. O Projeto de Lei nº 27/2026, encaminhado pelo prefeito à Câmara Municipal, propõe a desafetação de uma área institucional localizada em bairro que atende diversas famílias da cidade. A medida abriria caminho para uma permuta.
O problema não está apenas na proposta em si, mas na forma como ela chegou ao debate público. O projeto não apresenta informações essenciais: não há valor atribuído à área, não está identificado com quem seria feita a permuta e tampouco foi esclarecida qual contrapartida efetiva seria oferecida à comunidade que atualmente deveria ser atendida por aquele espaço.
Ainda assim, a tramitação ocorreu em ritmo acelerado. A audiência pública foi convocada às pressas e realizada às 10 horas da manhã — horário em que a maioria dos moradores trabalha ou estuda. O resultado foi previsível: muitos sequer souberam que o debate estava acontecendo.
A situação revela, na prática, uma evidente assimetria de poder. Um empresário interessado na área conseguiu acesso ao Executivo e mobilização política suficiente para levar o projeto à Câmara. Do outro lado estão centenas de famílias que vivem no bairro, com homens e mulheres que trabalham diariamente, jovens que estudam e rotinas que dificultam mobilizações rápidas diante de decisões tomadas em curto prazo.
Projetos dessa natureza não deveriam tramitar sob qualquer aparência de urgência.
Áreas institucionais existem justamente para atender os bairros onde foram reservadas. São espaços destinados à implantação de equipamentos públicos como escolas, unidades de saúde, áreas de lazer ou serviços comunitários.
Em outras palavras, não são terrenos comuns: são reservas planejadas para garantir qualidade de vida aos moradores daquela região.
Argumenta-se que um eventual equipamento público poderia ser construído em outro local. No entanto, dois obstáculos são evidentes. O primeiro é que o próprio projeto não apresenta garantia concreta de que isso acontecerá. O segundo é que a área foi originalmente destinada àquele bairro exatamente porque os equipamentos públicos deveriam ser implantados ali. Retirar dos moradores aquela área e construir equipamento público em outro lugar equivale a retirar algo daqueles moradores e dar a outros.
No centro dessa discussão está a essência da representação política. Vereadores são eleitos para defender os interesses da população.
Durante campanhas eleitorais, os vereadores encontram os moradores, percorrem ruas, visitam casas, conversam com moradores e pedem votos prometendo atenção às necessidades das comunidades.
Agora, eleitos, não espera-se menos: que ouçam, antes de decidir, estes mesmos cidadãos que foram por eles procurados quando em campanha eleitoral.
Se sabem encontrar os eleitores quando estão em campanha, tem a obrigação de encontra-los para ouvi-los depois de eleitos.
Inaceitável que este projeto seja sequer posto em votação antes dos moradores do bairro serem ouvidos.







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