O relógio da torre da igreja
Zildão e o Jacaré na Praça / Imagem criada por I.A. Há um velho relógio na torre da igreja da praça.
Não sei dizer exatamente quando ele foi colocado ali.
Quando nasci, ele já estava lá.
E, para falar a verdade, acho que muita gente na cidade tem a mesma impressão: a de que o relógio sempre existiu.
Ele fica no alto, observando tudo.
Quem passa apressado talvez nem repare mais. Agora a mocidade só vê as horas no celular. Nem relógio usam mais.
Mas o relógio da torre da igreja continua firme, marcando as horas da cidade— ainda que, de vez em quando, se atrase alguns minutos ou resolva adiantar o tempo sem pedir licença.
Antigamente, muita gente acertava o próprio relógio por ele. “Que horas são?” — perguntava alguém na calçada.
Bastava levantar os olhos para a torre e lá estava a resposta: são 11 horas, por exemplo.
O curioso é que aquele relógio não mede apenas o tempo.
Ele vai marcando é a histórias das pessoas.
Quantos encontros começaram ali embaixo?
Quantos namoros tiveram início depois de alguém dizer: “Te espero na praça” (e o relógio vendo)?
Quantas despedidas aconteceram olhando para aqueles ponteiros que pareciam andar rápido demais?
O relógio viu crianças virarem adultos.
Viu adultos ficarem velhos.
Viu gerações inteiras atravessarem a praça.
Assistiu aos domingos tranquilos, às bandas tocando no coreto, às conversas demoradas nos bancos de cimento.
Viu também os dias de pressa, quando as pessoas passam sem olhar para o alto.
Talvez por isso ele às vezes se atrase.
Não por defeito.
Mas porque relógios antigos parecem entender uma coisa que os modernos esqueceram: que o tempo da vida não é feito só de minutos e horas.
É feito de momentos.
E desses, aquele velho relógio da praça entende muito bem.
Quando passar por lá, dá uma olhada pra ele, para um tempinho pra assistir ele marcar o tempo passar.







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