O ano legislativo que não termina bem
A Câmara Municipal encerra o ano deixando uma impressão difícil de ignorar. Não pelas grandes discussões, tampouco por projetos estruturantes ou debates profundos sobre os rumos da cidade. O que marca este primeiro ano da legislatura é um conjunto de decisões que ampliam a distância entre representantes e representados.
De um lado, um número impressionante de homenagens — por tudo, por nada, por merecimento ou não — que transformaram o plenário em palco de formalidades repetitivas. De outro, decisões de peso, tomadas com rapidez incomum e pouca disposição para o diálogo com a população.
O aumento das despesas públicas em mais de R$ 4 milhões, resultado direto da duplicação dos subsídios dos vereadores, da criação de um 13º pagamento e da alteração de regras internas para permitir a reeleição da mesa diretora na mesma legislatura, contrariou frontalmente a vontade popular. Essa rejeição não foi silenciosa: manifestou-se de forma clara nas redes sociais, nos comentários e nas conversas da cidade.
A votação precisou ser repetida. E foi. Na segunda-feira, 15 de dezembro, às 7 horas da manhã. Horário pouco comum, Câmara vazia e vereadores sorridentes. Em menos de 25 minutos, realizaram três sessões extraordinárias, inclusive para dar nome a ruas — cuja “extraordinariedade” jamais foi explicada de forma convincente. Repetiu-se a votação, acrescentou-se o 13º subsídio e consolidou-se a possibilidade de reeleição interna.
Como se não bastasse, ganha força o movimento, liderado pela vereadora Lúcia Libânio, para transferir as sessões ordinárias para o período da tarde. A justificativa formal pode variar, mas o efeito é evidente: afastar ainda mais o cidadão comum do acompanhamento presencial dos trabalhos legislativos.
Depois de tantos discursos reclamando da lida com o povo, tratado por alguns vereadores como incômodo quase insuportável, quase um estorvo à rotina do Legislativo, nada parece mais coerente — ainda que profundamente equivocado — do que empurrar as sessões para horários cada vez menos acessíveis. Afinal, se o povo atrapalha, melhor mantê-lo longe.
Resta a grande incógnita que sempre ronda decisões desse tipo: a memória do eleitor. Alguns apostam que tudo será esquecido até a próxima eleição. Outros confiam que a população saberá distinguir homenagens fáceis de responsabilidades reais.
O tempo dirá. Mas a conta — financeira e política — já começou a ser cobrada.







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