Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
COM APARECIDA, CELEBRAR A FESTA DA VIDA
Jornal DEMOCRATA, edição 1942 de 3 de outubro de 2026 Maisuma vez celebramos este dia tão especial da Solenidade de Nossa Senhora daConceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil. Neste momento, uma suave eprofunda comoção toma conta dos nossos corações: sentimos mais viva eacolhedora a presença de Maria. Ela, a Mãe; nós, os filhos amados; e o mesmoamor de Jesus pulsa fortemente entre nós. Somos convidados a voltar o olharpara a pequena imagem encontrada em 1717, nas águas do Rio Paraíba do Sul, pormãos de humildes pescadores. Ela fala em silêncio: revela a Maria humilde epequenina de Nazaré, que traz em seu ventre puríssimo o Verbo encarnado, a Vidaque renova o mundo. Representa a mesma mulher compassiva que percebeu aiminente falta de vinho nas bodas e prontamente apontou a solução para que a alegriatransbordasse, dizendo: “Fazei tudo o que Ele vos disser!” (Jo 2,5b). Confiemossempre em sua poderosa e terna intercessão.
ALiturgia da Palavra embeleza ainda mais esta solenidade, pois evidencia agrandeza de uma mulher humilde. Maria nada reteve para si; soube colocar-seplenamente em seu lugar de serva, entrelaçando sua existência à vontade deDeus. Sua atitude é espelho e modelo de vida cristã, cuja nobreza espiritualtodos devemos aprender a cultivar. A dignidade de Rainha dos Céus e da Terra,que verdadeiramente lhe pertence, brota em plenitude dos méritos redentores deJesus Cristo. Portanto, sua honra majestática é pura Graça derramada. Mariasabe fazer perfeito uso do título que possui, pois nada pede senão o que cumprea vontade de seu Filho. Sua realeza traduz-se em puro serviço: serviu na terraenquanto cuidava de Jesus e amparava os apóstolos; serve agora no céu,advogando incansavelmente por cada um de nós.
Naprimeira leitura – Est 5,1b-2; 7,2b-3 –, encontramos a beleza e a nobreza realde Nossa Senhora prefiguradas na figura corajosa da rainha Ester. Contudo, emMaria, essa realeza reluz com um esplendor ainda mais sublime: a sua verdadeirabeleza não reside na efemeridade dos adornos deste mundo, mas no fato benditode que ela sabe amar. A formosura de Maria é o próprio amor de Deus refletidoem um coração totalmente puro e disponível; ela é bela porque ama sem reservas,porque abraça os desvalidos, compadece-se das nossas carências e faz de suavida uma contínua oferta de caridade.
Foicom essa mesma audácia do amor que a jovem Ester, filha de Israel,apresentou-se com vestes vistosas diante do soberano. Tratava-se de um riscoextremo, pois aproximar-se do trono sem ser chamada impunha a pena de morteirrefutável. Ester arriscou a própria existência, pois nada lhe era maisprecioso do que salvar o seu povo. Recordemos a história: o rei Assueroescolhera Ester para sua esposa. Na corte, o comissário Hamã, movido por ódio einveja de Mardoqueu, judeu fiel que se recusava a prestar-lhe reverência,obteve um decreto real para exterminar todos os judeus do Império Persa. Aotomar ciência do massacre iminente, Mardoqueu cobriu-se de luto e rogou àrainha que intercedesse diante do monarca. Vencendo o medo, Ester foi até o reie clamou com a força da fé: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for deteu agrado, concede-me a vida - eis o meu pedido! - e a vida do meu povo - eiso meu desejo” (Est 7,3). Esse pungente clamor pela vida ecoa hoje de formalímpida na voz de Maria. Ela também ergueu o canto da vida ao proclamar no Magnificata vitória dos humildes, e continua a interceder para que tenhamos vida emabundância. Diante de tantas realidades e estruturas que ferem e desvalorizam adignidade humana, unamo-nos a Maria para clamar contra a violência, o ódio, aindiferença e a destruição, anunciando incansavelmente a paz, a comunhão e oamor fraterno.
Recordo-mecom carinho das nossas peregrinações ao Santuário Nacional, que testemunham oflorir permanente da vida. Essa vida resplandece nas cores dos mosaicos queabraçam o altar central, entoando a exuberância da terra brasileira em hino delouvor ao Criador. Essa arte sacra vai ao encontro da vida pulsante de tantosdevotos que, carregando dores, cansaços, súplicas, mas também vitórias e precesde gratidão, ajoelham-se confiantes aos pés da pequena imagem de negra cor.Tudo ali é vida que brota em manancial de esperança. Por isso, comovidos,rogamos à nossa Mãe: “Aparecida, mãe querida, faz brotar em nós a vida nova deteu Filho Jesus. Livra-nos da morte, da violência, da guerra, da fome, dasintrigas e divisões. Livra do mal as crianças: tanto as que já nasceram quantoas que ainda estão no ventre materno. Que sejamos também nós portadores da vidalevando Jesus a todos os irmãos e irmãs”.
Mariaanseia profundamente que a festa da vida continue – Jo 2,1-11 –. Em Caná, foi oseu olhar maternal que percebeu a falta do vinho e a iminência do fim daalegria da festa. Deu, então, a indicação perene: “Fazei tudo o que Ele vosdisser”. Não é ela quem realiza o prodígio, mas o Filho; todavia, cabe a elaconduzir os passos da humanidade à única mediação perfeita, que é Cristo Jesus.Mandam-se encher seis talhas de pedra — número emblemático que remete aos seisdias da criação no Gênesis. Aquelas talhas transbordantes revelam a novacriação inaugurada pelo Redentor. Maria desponta como a nova Eva, Mãe dahumanidade regenerada, cooperadora na vitória sobre as trevas e o pecado. Oevangelista salienta que as talhas foram repletas até a borda, atestando asuperabundância da graça divina e que a redenção alcança o homem por inteiro. Afesta da vida pode, enfim, prosseguir sem receio de que o júbilo se extinga.
Enesta bendita festa da vida que hoje celebramos sob o olhar carinhoso de NossaSenhora Aparecida, não nos faltará sustento nem vigor para o caminho. Obanquete nupcial que o Senhor nos prepara atinge o seu ápice e a sua plenitudeno mistério do altar, onde o vinho novo do Reino já se faz presente entre nós.Ao lado de nossa Mãe celeste, somos convidados a aproximar-nos da mesa sagradapara receber o verdadeiro alimento das nossas almas: a Santíssima Eucaristia,pão da vida eterna e cálice da salvação, remédio de imortalidade que renovanossas forças e antecipa na terra a alegria eterna dos céus. Que Nossa Senhora daConceição Aparecida continue protegendo nossas famílias, o nosso Brasil. Suapresença materna chega a todos os lares e quer fazer morada junto de Jesus quetransforma toda a água em vinho de alegria eterna. Viva Nossa Senhora daConceição Aparecida!
OraniJoão, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio deJaneiro, RJ



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