Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Segundo Domingo da Páscoa

“Meu Senhor e meu Deus!”


Segundo Domingo da Páscoa Jornal Democrata, edição 1918 de 11 de abril de 2026

Celebramos, sempre no Segundo Domingo da Páscoa, o Domingo da Divina Misericórdia, antigo Domingo in Albis. O Evangelho é de João 20,19-31, que fala das duas vezes em que Jesus apareceu aos discípulos: a primeira no próprio dia da Ressurreição e a segunda oito dias depois. 

É neste domingo que a Igreja celebra a instituição da Sagrada Confissão (=Penitência), que Jesus instituiu no mesmo dia de sua Ressurreição. Aparecendo aos Apóstolos reunidos no Cenáculo – no domingo da Ressurreição –, Jesus disse: “Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, os pecados lhes serão perdoados; àqueles a quem não perdoardes os pecados, os pecados não serão perdoados” (Jo 20,22).

No plano da salvação, o Pai enviou o Filho para o perdão dos pecados; e o Filho enviou a Igreja. Ele quis que o perdão dos pecados fosse dado não de maneira vaga e abstrata, mas de modo concreto, pelos ministros da Igreja, os sacerdotes do Senhor. Por isso, o sacerdote, ao perdoar nossos pecados, diz: “Pelo ministério da Igreja… eu te absolvo de todos os teus pecados”. Que consolo! Que alegria saber que o Sangue precioso do Senhor, derramado na Paixão, lava a nossa alma de todos os pecados. Não há misericórdia maior; não há amor mais profundo; não há certeza mais firme de perdão.

Este segundo domingo da Páscoa, conhecido antigamente como “Domingo in Albis”, isto é, “Domingo Branco”, porque os neófitos voltavam a comunidade e entregavam suas vestes brancas, mas hoje também leva muitas pessoas a recordarem o dia da sua Primeira Comunhão ou da sua Comunhão Solene. Isso porque, em anos passados, era neste dia que se celebrava, preferencialmente, a primeira comunhão das crianças. Era uma bonita forma de ligar a Eucaristia à Páscoa, completando, dessa forma, a alegria pela Ressurreição de Jesus.

Hoje no Segundo Domingo da Páscoa a Igreja celebra a Divina Misericórdia, convidando-nos a nos aproximarmos de Deus sem medo de sermos menosprezados ou rejeitados. É um ensinamento bastante diferente daquilo que muitos de nós aprendemos na infância, quando éramos alertados a ter medo de Deus, porque Ele nos iria castigar. 

A Festa da Divina Misericórdia é celebrada no segundo Domingo da Páscoa e foi oficialmente instituída e estendida a toda a Igreja Católica no ano 2000, pelo Papa São João Paulo II. Essa festa tem sua origem na proclamação da Divina Misericórdia por meio do gesto eloquente de Jesus na cruz, doando a sua vida pela salvação da humanidade e inspirada nas experiências místicas de Santa Faustina. 

No Evangelho deste domingo, aparece a figura de Tomé. Diz-nos o Evangelho: “Oito dias depois, encontravam-se os seus discípulos outra vez no mesmo lugar, e Tomé com eles. 

Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: ‘A paz esteja convosco’. Depois disse a Tomé: ‘Coloca aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima também a tua mão e coloca-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas fiel’” (Jo 20,26-27).

A resposta de Tomé é um ato de fé, de adoração e de entrega sem limites: “Meu Senhor e meu Deus!”. São quatro palavras inesgotáveis. A fé do Apóstolo brota não tanto da evidência de Jesus, mas de uma dor imensa. O que o leva à adoração e ao retorno ao apostolado não são tanto as provas, mas o amor. Diz a Tradição que o Apóstolo Tomé morreu mártir pela fé em seu Senhor. Consumiu a vida a seu serviço.

A virtude da fé é a que nos dá a verdadeira dimensão dos acontecimentos e nos permite julgar retamente todas as coisas. “Somente com a luz da fé e a meditação da palavra divina é que é possível reconhecer Deus sempre e por toda a parte, esse Deus em quem vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). 

Somente assim é possível procurar a vontade divina em todos os acontecimentos, ver Cristo em todos os homens, sejam parentes ou estranhos, e proferir juízos corretos sobre o verdadeiro significado e valor das coisas temporais, tanto em si mesmas como em relação ao fim último.

Se a nossa fé for firme, também haverá muitos que se apoiarão nela. 

É necessário que essa virtude teologal vá crescendo em nós dia após dia, que aprendamos a olhar as pessoas e os acontecimentos como o Senhor os olha, e que a nossa atuação no meio do mundo esteja vivificada pela doutrina de Jesus. 

Por vezes, percebemos que precisamos crescer na fé, assim como o Apóstolo. Teremos, então, de crescer em confiança no Senhor, seja diante das dificuldades no apostolado, seja diante de acontecimentos que não sabemos interpretar do ponto de vista sobrenatural, seja ainda em momentos de escuridão, que Deus permite para que se firmem em nós outras virtudes.

Peçamos ao Senhor que nos dê a graça de aumentar a nossa fé. Que a nossa fé, mesmo passando, muitas vezes, ao longo da caminhada, por certos turbilhões, seja profunda e autêntica. Ao celebrarmos também este Domingo da Misericórdia, que vivamos intensamente este dom em nossa família, no trabalho e na paróquia.


Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




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