Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor


Domingo da Páscoa na Ressurreição do Senhor Jornal Democrata, Edição 1917 de 4 de abril de 2026

Chegamos ao cume radioso da nossa fé! O pranto da Sexta-feira Santa secou, o silêncio angustiante do Sábado Santo foi rompido pelo canto do Exsultet, e agora, banhados pela luz inextinguível da manhã de Páscoa, a Igreja inteira, em todos os cantos da terra, entoa a uma só voz: “Este é o dia que o Senhor fez para nós: alegremo-nos e nele exultemos!” (Sl 117,24). O sepulcro está vazio! A morte, aquele inimigo implacável que parecia ter a última palavra sobre a nossa existência, foi definitivamente esmagada sob os pés gloriosos do Cristo Ressuscitado. A pedra pesada que fechava a entrada do túmulo, e que simbolizava o peso esmagador dos nossos pecados e desesperanças, foi rolada para sempre.

Cristo Ressuscitou verdadeiramente, Aleluia! Verdadeiramente ressuscitou, Aleluia, Aleluia! Repetimos incansavelmente nestes dias pascais.

O Evangelho de São João que a liturgia nos propõe para esta esplêndida manhã (Jo 20,1-9) nos convida a correr junto com os primeiros discípulos para testemunhar este fato inaudito que dividiu a história do universo. O evangelista começa narrando: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de madrugada, sendo ainda escuro, e viu a pedra retirada do túmulo” (Jo 20,1). Notemos, meus caríssimos, a força desta imagem: sendo ainda escuro. Maria Madalena carrega em seu coração a escuridão do luto, a dor da perda daquele que havia lhe devolvido a dignidade. O mundo natural ainda estava submerso nas trevas da noite, mas no calendário de Deus, um novo dia já havia raiado. É o “primeiro dia da semana”, o dia da nova criação. Assim como no princípio Deus disse “Faça-se a luz” (Gn 1,3), agora a Luz do Mundo ressurge das profundezas da terra para nunca mais se apagar.

Desorientada e amedrontada pela possibilidade de terem roubado o corpo do Mestre, Maria Madalena corre ao encontro de Pedro e do discípulo que Jesus amava. “Tiraram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o colocaram!” (Jo 20,2). A resposta dos apóstolos é imediata. Eles saem apressados, correndo juntos em direção ao sepulcro. João, sendo mais jovem, chega primeiro, mas por reverência à autoridade que o próprio Cristo conferira a Pedro, espera que ele entre. E o que Pedro vê? “Viu as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não posto com as faixas, mas enrolado num lugar à parte” (Jo 20,6-7).

Meus irmãos, este detalhe não é um mero enfeite literário. Ele é a prova silenciosa e majestosa da ressurreição. Se o corpo de Jesus tivesse sido roubado, como espalharam os guardas subornados (cf. Mt 28,13), os ladrões teriam levado o corpo às pressas, de forma caótica, ou teriam levado os lençóis preciosos. Mas tudo ali está em perfeita ordem. O sudário enrolado à parte revela que Aquele que ali repousava despertou, libertou-se das amarras da morte com total soberania, como quem se levanta tranquilamente do seu leito pela manhã e dobra as suas vestes. Diante desta ordem divina, o evangelista nos atesta sobre si mesmo: “Então entrou também o outro discípulo, que tinha chegado primeiro ao túmulo. Ele viu e creu” (Jo 20,8).

Ver e crer. Esta é a vocação da Igreja! Este é o nosso chamado nesta manhã de Páscoa! Nós não somos seguidores de uma bela filosofia moral ou de um profeta morto e mumificado pelo tempo. Nós somos discípulos de uma Pessoa Viva! Como nos ensina de forma tão penetrante São Bernardo de Claraval, o mistério da Páscoa não é um simples retorno à vida biológica, como aconteceu com Lázaro, que mais tarde voltou a morrer. A ressurreição de Cristo é o ingresso da nossa própria humanidade na eternidade de Deus. O grão de trigo caiu na terra, morreu, e agora produz um fruto imenso, que somos todos nós, os redimidos.

Na Segunda Leitura, o Apóstolo São Paulo, na sua Carta aos Colossenses – Cl 3,1-4 –, nos extrai as consequências morais e espirituais desta verdade avassaladora: “Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que estão no alto, onde Cristo está assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas do alto, e não nas coisas da terra” (Cl 3,1-2). O que significa, afinal, buscar as coisas do alto? Buscar as coisas do alto significa viver a nossa vida na terra, os nossos trabalhos, os nossos relacionamentos e os nossos deveres cotidianos, com a mentalidade do Céu.

Ressuscitar com Cristo significa não permitir que os “túmulos” do nosso tempo nos aprisionem. Quantos de nós, mesmo batizados, caminhamos pela vida como se fôssemos mortos-vivos? Aprisionados nos túmulos do ressentimento, incapazes de perdoar; trancados nos sepulcros da tristeza, do pessimismo e da falta de esperança; amarrados pelas faixas do egoísmo, dos vícios e do pecado. A Páscoa é a passagem! O Cristo vivo hoje te estende a mão e ordena: sai do teu sepulcro! Deixa para trás a roupagem velha do homem pecador. A graça de Deus é infinitamente maior do que qualquer erro do teu passado.

Na Primeira Leitura, extraída dos Atos dos Apóstolos – At 10,34a.37-43 –, vemos a transformação radical que a ressurreição operou no apóstolo Pedro. Aquele mesmo homem que, na noite de quinta-feira, acovardou-se e negou Jesus por três vezes diante de uma simples criada, agora, cheio do Espírito Santo, levanta-se no meio da casa do centurião romano Cornélio e prega com intrepidez inabalável: “Nós somos testemunhas de tudo o que ele fez na terra dos judeus e em Jerusalém. Eles o mataram, pregando-o numa cruz. Mas Deus o ressuscitou no terceiro dia... e nos mandou pregar ao povo e testemunhar que Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos” (At 10,39-40.42).

Esta é a nossa suprema missão hoje! Um cristão que celebra a Páscoa de verdade não pode ter um rosto triste. A nossa alegria não é a euforia passageira do mundo, que dura o tempo de uma festa, mas é a alegria enraizada, a paz serena e inabalável de quem sabe que está nas mãos de um Deus vitorioso. Nós somos as testemunhas atuais do Cristo Ressuscitado! Como testemunharemos? Com a santidade da nossa vida. Com a honestidade no nosso trabalho. Com a fidelidade no nosso matrimônio. Com o amor oblativo aos nossos filhos. E, sobretudo, com a nossa caridade operante, reconhecendo no rosto de cada pessoa que sofre a imagem d’Aquele que deu a vida por nós.

Levai a paz do Cristo Ressuscitado para as famílias. Sentai-vos à mesa em vossas casas, com o coração purificado. Se houver desavenças, que hoje seja o dia do perdão. Se houver distâncias, que hoje seja o dia do abraço. Se houver tristeza, que a certeza da vida eterna renove as vossas forças. Alimentados pelo Pão da Vida, que recebemos neste altar eucarístico — a verdadeira e definitiva refeição pascal —, saiamos das nossas paróquias como apóstolos da esperança, contagiando as ruas da nossa cidade com a Boa Nova da salvação.

Neste dia de indescritível glória, unimos a nossa alegria à alegria da Bem-Aventurada Virgem Maria. A Igreja, a partir de hoje e durante todo o Tempo Pascal, substitui a oração do Angelus pelo cântico do Regina Caeli. Rezemos com ela e como ela: “Rainha do Céu, alegrai-vos, aleluia! Pois o Senhor que merecestes trazer em vosso seio, aleluia! Ressuscitou como disse, aleluia!”. Que a Mãe do Ressuscitado ampare os nossos passos, abençoe as nossas famílias e nos conduza sempre pela estrada luminosa do Evangelho.

Desejo a todos vós, do fundo do meu coração de pastor, uma Feliz, Santa e Abençoada Páscoa!

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ




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