Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

O Itinerário da Luz


O Itinerário da Luz Jornal Democrata, edição 1914, de 14 de março de 2026

A liturgia deste quarto domingo da Quaresma chamado de Domingo Laetare, convida-nos a uma alegria profunda que nasce da certeza de que a luz de Deus é capaz de dissipar toda e qualquer treva humana. 

No Ano A, somos guiados pelo Evangelho de João para contemplarmos o sinal messiânico da cura do cego de nascença, um texto que é, em essência, uma catequese sobre o Batismo e a iluminação da fé. 

A antífona de entrada já nos prepara o espírito ao proclamar: “Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais”, pois a Páscoa se aproxima e, com ela, a vitória definitiva de Cristo sobre o pecado. Esta alegria não ignora o deserto quaresmal, mas o atravessa com a esperança de quem sabe que o Senhor nunca nos abandona à própria cegueira espiritual.

O relato evangélico (Jo 9, 1-41) inicia-se com uma pergunta que reflete a mentalidade da época e, muitas vezes, a nossa própria: Mestre, quem pecou para que este homem nascesse cego: ele ou seus pais? Diante do sofrimento e da limitação, nossa tendência humana é buscar culpas, causas e punições. Jesus, no entanto, eleva o debate e revela a pedagogia divina ao responder que nem ele nem seus pais pecaram, mas que aquilo aconteceu para que nele se manifestem as obras de Deus (Jo 9, 3). Cristo nos ensina que a nossa fragilidade não é um espaço de exclusão, mas o lugar privilegiado da manifestação da graça. 

Ele se apresenta como o Enviado do Pai e afirma com autoridade divina: Enquanto estou no mundo, eu sou a luz do mundo (Jo 9, 5). É este Cristo que, ao misturar saliva com a terra e aplicar nos olhos do cego, recorda-nos a nossa própria criação no livro do Gênesis, ungindo a nossa humanidade para uma nova visão da vida.

Ao ordenar que o cego se lavasse na piscina de Siloé, que significa Enviado (Jo 9, 7), Jesus estabelece uma conexão direta com o sacramento do Batismo. Ao emergir daquelas águas, aquele homem não apenas recupera a visão física, mas inicia um processo de conversão e reconhecimento da divindade de Jesus. Ele, que outrora vivia à margem da sociedade, mendigando luz, torna-se agora uma testemunha audaz. Esse processo de cura espiritual é reforçado pela segunda leitura de hoje (Ef 5, 8-14), onde o Apóstolo Paulo exorta a comunidade com firmeza: Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. 

Vivei como filhos da luz (Ef 5, 8). O cristão é, por definição, aquele que foi iluminado por Cristo e que, por isso, deve produzir frutos de bondade, justiça e verdade, rejeitando as obras infrutíferas das trevas. 

A nossa identidade batismal nos exige este compromisso cotidiano: ser luz em um mundo que muitas vezes prefere o obscurecimento da ética e da verdade.

O Evangelho também nos apresenta o drama da resistência à luz por parte daqueles que julgam tudo saber. 

Enquanto o cego passa a enxergar e cresce na fé, os fariseus, presos ao rigorismo da lei e ao orgulho institucional, mergulham em uma escuridão ainda mais densa. Eles se recusam a aceitar o milagre porque Jesus o realizara em dia de sábado, preferindo a norma ao homem curado. A cegueira deles não é física, mas de coração. 

O contraste é gritante e pedagógico para todos nós: o cego, em sua simplicidade, reconhece Jesus primeiro como homem, depois como profeta e, finalmente, como o Filho do Homem, prostrando-se em adoração e dizendo: Eu creio, Senhor! (Jo 9, 38). 

Já os doutores da Lei acabam por ser os verdadeiros cegos. Como o próprio Jesus adverte ao final do capítulo, o pecado permanece naqueles que afirmam ver, mas se fecham à novidade da misericórdia de Deus (Jo 9, 41).

A primeira leitura deste domingo (1Sm 16, 1b.6-7.10-13a) complementa perfeitamente esta reflexão ao narrar a unção do jovem Davi. Samuel, o profeta, deixa-se levar pelas aparências externas e pela estatura dos filhos de Jessé, mas Deus o corrige com uma lição que atravessa os séculos e deve guiar o nosso discernimento: “Não olhes para a sua aparência nem para a sua grande estatura... o homem vê as aparências, mas o Senhor olha o coração” (1Sm 16, 7). 

Esta passagem nos convida a pedir ao Espírito Santo a graça de enxergarmos como Deus enxerga. 

Muitas vezes, nossa própria cegueira nos impede de ver a beleza e o valor nas pessoas que a sociedade do descarte invisibiliza. Ver com o olhar de Deus é descobrir o potencial de santidade onde o mundo só vê limitação, é ungir com esperança aqueles que foram esquecidos pela soberba do poder e do ter.

Neste caminho de iluminação, somos consolados pelo Salmo Responsorial deste domingo, o Salmo 22 (23), que é uma das mais belas profissões de confiança da Bíblia: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará... Ainda que eu caminhe por vales tenebrosos, nada temerei, pois estais comigo” (Sl 22, 1.4). 

O Bom Pastor é aquele que nos guia para além das sombras da morte e das trevas da dúvida. Ele é quem unge a nossa cabeça com o óleo da alegria e prepara para nós a mesa da Eucaristia, mesmo diante dos nossos adversários espirituais. 

Quando nos sentimos cegos pelas dificuldades da vida, pelo cansaço da caminhada ou pelas crises familiares, o Salmo nos recorda que a bondade e a misericórdia do Senhor nos acompanharão todos os dias de nossa vida, pois Ele nos conduz para as águas repousantes da Sua paz.

Olhemos para o exemplo do cego que, após ser curado, não teve medo de enfrentar as autoridades para defender a verdade da sua experiência: Uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo (Jo 9, 25). Que este Domingo Laetare nos conceda essa mesma coragem de testemunhar a luz. Que a Quaresma cumpra em nós o seu propósito de lavar nossos olhos na piscina da Palavra e dos Sacramentos. Peçamos à Virgem Maria, a Senhora da Guia, que sempre caminhou na luz plena da fé, que nos ajude a retirar as escamas do pecado e do preconceito de nossa visão. 

Que possamos, ao final desta celebração, sair renovados em nossa missão de sermos reflexos da luz de Cristo em nossa cidade, levando claridade onde houver confusão e esperança onde houver escuridão. Que o Senhor nos ilumine e nos fortaleça para chegarmos, com o coração purificado, à gloriosa e santa noite da Páscoa. 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ



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