O escritor que revelou o Brasil profundo e ainda interpela o presente

Engenheiro, militar e jornalista, Euclides da Cunha transformou a Guerra de Canudos em espelho do país real e inaugurou uma forma radical de pensar o Brasil

Jornal Democrata, edição 1906 de 17 de janeiro de 2026
O escritor que revelou o Brasil profundo e ainda interpela o presente Euclides da Cunha / foto aprimorada com inteligência artificial
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Neste ano de 2026, o Brasil celebra os 160 anos de nascimento de Euclides da Cunha (1866–1909), uma das figuras mais complexas e decisivas da história intelectual brasileira. Engenheiro por formação, militar por disciplina e jornalista por vocação, Euclides não apenas registrou um conflito armado no sertão baiano: revelou um país inteiro que o litoral insistia em não enxergar.

Autor de uma obra relativamente concisa, porém de impacto duradouro, Euclides da Cunha foi responsável por inaugurar o Pré-Modernismo, período literário marcado pela ruptura com idealizações românticas e pela exposição crua das contradições sociais brasileiras. Seu rigor científico, aliado a uma escrita de forte densidade literária, moldou uma nova forma de interpretar o Brasil — mais crítica, menos complacente.

Obras que ajudaram a explicar o país

A produção euclidiana atravessa gêneros e campos do saber, sempre com a preocupação de compreender o homem brasileiro em seu ambiente histórico e social. Considere:

  •  Os Sertões (1902) — Ensaio e narrativa histórica sobre a Guerra de Canudos;
  •  Contrastes e Confrontos (1907) — Artigos e ensaios sobre política, sociedade e ciência;
  •  Peru versus Bolívia (1907) — Ensaio geopolítico sobre a Amazônia;
  •  À Margem da História (1909, póstuma) — Ensaios sobre o Brasil e a região amazônica;
  •  Canudos: Diário de uma Expedição (1939, póstuma) — Anotações de campo do conflito;
  •  Ondas (1966) — Reunião de poemas de juventude;

Entre o determinismo e a denúncia

Formado na Escola Militar sob forte influência do positivismo de Benjamin Constant, Euclides da Cunha absorveu teorias deterministas e evolucionistas típicas do final do século XIX. 

Em seus primeiros escritos, chegou a interpretar Canudos como um surto de fanatismo político e religioso, comparando-o à Vendeia francesa.

No entanto, o contato direto com o sertão, como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, transformou radicalmente sua visão. 

Ao presenciar a devastação provocada pelas forças oficiais, Euclides reviu suas próprias convicções teóricas. A barbárie, concluiu, não estava no sertanejo, mas no Estado que o exterminava.

Essa transição — do cientificismo rígido à denúncia humanista — é o eixo central de sua obra e a razão de sua permanência no debate intelectual brasileiro.

“Os Sertões”: um livro que ainda acusa

Publicado em 1902, Os Sertões permanece como uma das obras mais influentes da literatura nacional. Dividido em A Terra, O Homem e A Luta, o livro combina geografia, sociologia, história e épica narrativa para denunciar o abismo entre o Brasil oficial e o Brasil real.

A frase que atravessou gerações resume essa ruptura:

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Com ela, Euclides deslocou o sertão do lugar da inferioridade para o centro da reflexão nacional, influenciando autores como Graciliano Ramos e Guimarães Rosa e inaugurando uma tradição crítica que ainda ecoa.

Como Euclides da Cunha escreveria hoje sobre a 

violência do  Estado?

Se Euclides da Cunha fosse hoje um repórter diante de jovens carentes e periféricos espancados pelo poder do Estado, seu olhar provavelmente seguiria o mesmo percurso intelectual de Canudos.

Inicialmente, talvez buscasse explicações nos números, nas estatísticas, no ambiente urbano degradado, na ausência de políticas públicas — como fizera ao analisar o clima, o solo e a formação racial do sertão. 

Talvez analisasse a geografia da periferia, como cidadãos são levados para longe dos centros urbanos, sem postos policiais, sem hospitais, com um Estado firme para cobrar impostos para lento para dar estrutura; Talvez analisasse a composição sociológica da sociedade brasileira moderna, sua origem e o que Buarque de Olanda chamou “homem cordial”; Talvez considerasse os conflitos internos não com uma dicotomia elementar “polícia-bandido” mas a partir de interesses subterrâneos e ligações interpessoais que muitas vezes tangenciam e moldam os conflitos no Brasil. 

Mas, fiel à sua própria trajetória, não permaneceria aí.

Ao testemunhar a cena concreta — o corpo marcado, o medo silencioso, a normalização da brutalidade — Euclides inverteria o eixo da acusação.

Como em Os Sertões, concluiria que a violência não nasce na periferia, mas na estrutura de um Estado que só se faz presente por meio da força.

A força bruta talvez seja a única face do Estado vista por muitos cidadãos da periferia Brasil a fora.

Seu texto não seria panfletário, mas devastador. 

Descreveria a ação policial como produto de uma engrenagem histórica que transforma jovens pobres em inimigos internos. 

Chamaria atenção para o paradoxo de um país que proclama ordem, mas a sustenta sobre a humilhação sistemática dos mesmos segmentos sociais.

Tal como fez no início do século XX, Euclides denunciaria o abismo entre o discurso civilizatório e a prática cotidiana do poder. 

E, mais uma vez, escreveria não para absolver ou justificar a violência, mas para expor o Brasil a si mesmo — sem atalhos, sem retórica fácil, sem indulgência.

Porque, em última instância, sua obra não foi apenas sobre Canudos. Foi — e continua sendo — sobre o Estado brasileiro diante dos seus próprios filhos.

E continuaria tendo sua obra estudada em São José do Rio Pardo, com coqueteis, aulas-magnas, podcasts, obras e exposições de arte financiadas pelo mesmo poder  público que manda seu braço armado espancar os pobres ocupantes da periferia das cidades e dos espaços do poder.

Certamente nobres acadêmicos avaliaram a obra no nobre escritor, enquanto viram os rostos para violência que acontece sob seus próprios narizes.

Que falta faz Euclides da Cunha!

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